SP Escola de Teatro

Bibi Ferreira por Marcelo Médici

A primeira vez que vi Bibi no palco, foi num show chamado “Bibi in Concert”, no Rio de Janeiro. Um pouco tardio eu sei, mas o “rei tempo” nos prega peças.

 

Da plateia, fiquei muito impressionado ao ver aquela mulher cantando de forma tão absurda. Bibi não é uma atriz que canta, nem uma intérprete, Bibi é cantora. E das melhores. No show, cantou Amália Rodrigues, Piaf (af!), a bela e oportuna canção de Cazuza, “Brasil”, e até um rap, composto por ela! Um assombro.

 

Um belo (belíssimo) dia, fui convidado a atuar em um espetáculo que seria dirigido por ela. Nem li o texto, pois um convite como esse não se pestaneja em aceitar. 

 

Durante os ensaios, Bibi não facilitou em nada minha vida. Qualquer ator carente acharia que a diretora não tinha ido com sua cara, estava pegando no pé ou tinha cismado. Claro que também sou carente, mas entendi que o jogo proposto era aquele. 

 

E lá fui eu, resignado, meio apaixonado, me deixar levar por aquela usina de energia. Bibi chega aos ensaios cada dia de um jeito: menina boazinha, menina má, menina mentirosa, doce, sedutora, sábia, ditadora, engraçada, mãe, técnica, intuitiva. Bibi é todas elas e muito mais. Mas ela nunca chegou ao ensaio insegura. 

 

Atenta até os ossos, impossível enganar Bibi, seja no texto, seja numa intenção, seja numa marca. Conhece o palco como seu próprio corpo. Ela e aquelas tábuas são a mesma coisa, disso não resta dúvida. Na estreia, estávamos apaixonados, como, pelo menos eu, previa. Ela me deu um livro biográfico, dedicado. O mais importante da minha vida.

 

Disse ela que não queria ser atriz, a decisão foi de seu pai, Procópio Ferreira. Talento não é hereditário, mas no caso de Bibi Ferreira, algo de atávico se manifesta. A técnica adquirida se uniu ao talento nato.

 

A vida da atriz se mistura à história do teatro brasileiro. Atriz, bailarina, cantora, diretora, já encantou a todos como a florista de “My Fair Lady”, ao lado de Paulo Autran. Foi responsável por um dos pontos altos do teatro brasileiro com sua trágica Medéia brasileira, a Joana de “Gota d’Água” (Chico Buarque e Paulo Pontes), e fez rir com muita classe, como na comédia “Às Favas com os Escrúpulos”, escrita por Juca de Oliveira especialmente pra ela. 

 

E, ás vésperas de completar 90 anos, ela vem com um novo espetáculo, ainda esse ano. Se fosse para numerar aqui toda a contribuição de Bibi Ferreira ao teatro, teríamos um tratado. Um tratado de amor, de vida. Bibi é teatro. Não existe limite. Qualquer pessoa que decida por essa profissão, há de esbarrar nela. Bibi me dirigiu pra sempre.

 

 

Veja os verbete de Marcelo MédiciBibi Ferreira na Teatropédia.

 

 

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