SP Escola de Teatro

Eduardo Tolentino por André Garolli

Um Amigo

(Adaptação do texto de Carlos Drummond de Andrade)

 

Não precisa ser homem, basta ser humano,

        basta ter sentimentos, basta ter coração.

        Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.

        Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaros,

        de sol, de lua, de canto, dos ventos

        e das canções da brisa.

        Deve ter amor, um grande amor por alguém,

        ou, então, sentir falta de não ter esse amor.

        Deve amar o próximo e respeitar

        a dor que os passantes levam consigo.

        Deve guardar segredo sem se sacrificar.

        Não é preciso que seja de primeira mão,

        nem é imprescindível que seja de segunda mão.

        Pode já ter sido enganado,

        pois todos os amigos são enganados.

        Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro,

        mas não deve ser vulgar.

        Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e,

        no caso de assim não ser,

        deve sentir o grande vazio que isso deixa.

        Deve ter ressonâncias humanas,

        seu principal objetivo deve ser o de ser amigo.

        Deve sentir pena das pessoas tristes e

        compreender o imenso vazio dos solitários.

        Deve gostar de crianças e lamentar

        os que não puderam nascer.

        Que saiba conversar de coisas simples,

        de orvalho, de grandes chuvas

        e de recordações da infância.

        Precisa-se de um amigo para não enlouquecer,

        para contar o que se viu de belo e triste durante o dia,

        dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.

        Deve gostar das ruas desertas, de poças de água

        e dos caminhos molhados, de beira de estrada,

        de mato depois da chuva,

        de se deitar no capim.

        Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver,

        não porque a vida é bela,

        mas porque já se tenha um amigo.

        Precisa-se de um amigo para se parar de chorar.

        Para não se viver debruçado no passado

        em busca de memórias perdidas.

        Que bata nos ombros sorrindo e chorando,

        mas que nos chame de amigo,

        para se ter consciência de que ainda se vive.                           

 

 

Veja os verbetes de André Garolli e Eduardo Tolentino na Teatropédia.

 

Para ver os outros depoimentos que compõem a semana em homenagem ao Dia Mundial do Teatro, clique aqui.

Sair da versão mobile