SP Escola de Teatro

Fernanda Montenegro por Felipe Hirsch

Fui assistir a “Viver Sem Tempos Mortos” depois de bastante tempo distante. A peça mudou. É normal que isso aconteça, com delicadeza. Com a plateia respirando dia após dia na sua frente. Com a sensibilidade da Fernanda, que tem um caminho, mas não tem limites, vi mais a personagem. Ouvi mais a sua voz. Senti o sangue coagulado. Com perspectiva, todos os ângulos são mais visíveis. Embaixo da lâmpada, diz o provérbio chinês, é o lugar mais escuro. Vivíamos, durante os ensaios, no olho do furacão. Dois anos depois, “Viver Sem Tempos Mortos”, que sempre foi uma experiência única e emocionante, está pleno. É um clássico. 

 

Lembro-me de uma recente entrevista, em que Fernanda disse: “Realizei uma profissão que considero importantíssima: subir no palco para converter meu corpo em instrumento de discussões”. Sempre acreditei que as ideias desse trabalho, com a Fernanda, deveriam ser colhidas numa fonte muito próxima do coração dessa artista. Ela, como todos nós, deveria ter um ou mais títulos daqueles livros que nunca saem do lado de nossas cabeceiras e dificilmente voltam à biblioteca. Essas páginas tão marcadas, compreendidas, que nos acompanham e continuam nos surpreendendo pela vida. Clarice é isso para Fernanda. Simone de Beauvoir também é.

 

Simone, cruamente, fez de sua vida, sua obra literária. Dizia só desejar ser reconhecida para um dia poder escrever sua autobiografia. E assim fez. Escreveu seis. Afirmo, com profunda admiração, que essas são as suas maiores obras. Onde Fernanda adentra nesse mundo, entende, se reconhece? O que ela fez dela, ou se entregou a que? 

 

Fernanda instintivamente se afastou da imitação física e se aproximou da interpretação emocional de Simone. Mais do que isso, em nossas primeiras conversas, já admitia colocar em choque sua personalidade com a de Simone. Confesso que, na teoria, baseado em experiências anteriores, temia que a persona de uma mulher forte, como a Fernanda, não se entregasse à outra. Na prática dos ensaios, percebi nitidamente o contrário. 

 

O quanto a experiência de uma vida pode iluminar esse caminho? Fernanda nos trouxe até aqui. Carregou essas imagens, lapidou sentimentos, sofreu, previu, reafirmou todos os dias felizes, mesmo os mais difíceis, mesmo os mais tristes, uma, duas, dez vezes. Uma vez, disse nos ensaios: “Nós passamos por tudo isso, por que não passaríamos de novo?”.

 

No início, meus pensamentos pousavam num quarto de hotel na Rue de Seine, número 60. Uma mulher sentada escreve à mão, em um papel, numa pequena mesa encostada à janela do quarto. Sua bicicleta repousa ao seu lado. 

 

Desde que me aproximei desse trabalho, ouvi o texto de “Viver Sem Tempos Mortos”, pela Fernanda, quase cento e cinquenta vezes. Não sei explicar, precisamente, como ela consegue despertar imagens tão intensas, mesmo depois de tanto tempo. Ela me diz que levanta à noite, lembra dessas palavras e pratica, como notas das “Variações de Goldberg”, de Bach, até adormecer. Percebi que, como Glenn Gould, ela procura, diverge e fala entre as linhas, buscando o melhor caminho para se aproximar, emocionalmente, daquelas palavras. Disse que só começa a sentir satisfação depois de meses experimentando o silêncio e a respiração de uma plateia. Quem assiste a esse trabalho percebe essa sutil pulsação. Foi isso que senti, agora, dois anos depois. 

 

Com o passar do tempo, o que estava em volta dessa mulher, sentada no quarto de hotel, foi se apagando, como se as palavras ditas convidassem aos seus próprios universos e o interior delas fosse o lugar para ser imaginado. Solitária, essa mulher flutua nesse lugar. Um dia nos ensaios, Tiago, nosso assistente, chamou nossa atenção para uma cadeira. Disse-nos que essa era a cadeira que Simone pediu para sentar ao lado da sepultura de Sartre. Desse dia em diante, testemunhamos esse momento.

 

O que me ligou à Fernanda, ao Nanini, ao Paulo Autran e ao Paulo José, atores muito experimentados, foi o lado amador dessa profissão. O que os levou, apaixonadamente, à escolha dessa vida. Nenhum deles nunca me afirmou ter certeza de nada. Ou saber tudo. Suas grandes curiosidades os levaram em frente. 

 

Nessa vida, não acredito e nem duvido de mais nada. Nada pode ser experimentado sem surpresa. A vida não é de quem sabe viver.

 

 

Veja os verbetes de Felipe Hirsch e Fernanda Montenegro na Teatropédia.

 

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