SP Escola de Teatro

Papo de Teatro com Raul de Orofino

Raul de Orofino é ator, autor, diretor teatral e professor 

 

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro? 

Assistindo a Tonia Carrero. Ela fazia “Constantina”, e eu tinha 14 anos. Foi no Teatro do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Lembro de ouvir os risos do público por conta do texto e dos atores, ou melhor, pelo poder do teatro. Mexeu com o meu coração. E aí eu decidi: “quero fazer isto na vida!”

 

Lembra da primeira peça a que assistiu?

Foi “Constantina”, que descrevi acima.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

“Os Veranistas”, do Gorki, com a Renata Sorrah, Rodrigo Santiago, Yara Amaral. Eu tinha 17 anos. Percebi que o teatro pode ampliar a sua consciência em relação aos seus comportamentos e atitudes. O teatro pode te levar à saúde emocional. Hoje tenho absoluta certeza disto.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida. 

“Brincando em Cima Daquilo”, com  textos do Dario Fo e da Franca Rame, com a Marília Pêra. Fiquei encantado com a possibilidade de “brincar” de fazer vários personagens. Fiz isso e faço até hoje. Me fascina brincar com o meu corpo e ver sair dele várias pessoas.

 

Você teve algum padrinho no teatro?

Tive uma madrinha, ou melhor, uma “mãe de teatro”, que é a Irene Ravache. Ela foi a minha “pós-graduação” em Teatro; minha carreira se divide em antes e depois deste encontro. Ela dirigiu o Teatro a Domicílio, que eu havia criado em 1990. Dirigiu “Beijo de Humor” (1992), “As Vantagens de ser Bobo” (1994), com textos da Clarice Lispector, e o espetáculo que apresentei em aviões, o “Homem no ar” (1993), que foi uma experiência inédita no mundo. E ainda dirigiu o “Beijo de Humor”, em versão para teatro, no Crowne Plaza (1995). Com ela, tive consciência de que tipo de ator e autor eu sou, e trilhei um caminho a partir disto. Hoje escrevo, atuo e dirijo os meus espetáculos. O encontro com a Irene foi fundamental na minha vida e um dos meus encontros mais divertidos em teatro. Trabalhávamos sempre rindo, mesmo falando coisas seríssimas. Ela me ensinou a fazer humor com afeto.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? 

Não lembro, acho que não. Se o espetáculo é chato, fico até o fim para entender a cabeça de quem criou aquela chatura para eu não fazer igual.

 

Teatro ou cinema?

Teatro e cinema. O bom é fazer personagens. Cada um é cada um, mas sei que morrerei velhinho fazendo teatro. Será lindo!

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. 

“Doce Deleite”. Quando vi, meu sonho era fazer algo assim, que levasse as pessoas a rirem muito. Hoje, pelo meu trabalho, entendo claramente porque o riso era tão importante para mim. O riso é altamente curativo para dores emocionais e físicas. E realmente, quando a plateia ri de suas dores, começa uma cura emocional.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo?

Sim, vários. Sou apaixonado por textos bem ditos e pelos atores. Adoro ver um bom ator várias vezes. 

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?

Brasileiro: Nelson Rodrigues, por ser tão bom na carpintaria teatral, o texto dele é direto e une humor  e emoção. Estrangeiro, adoro o italiano Dario Fo, aprendi a escrever monólogos lendo os seus textos. E tive o prazer de vê-lo ao vivo num espetáculo, e a sua mulher também, a Franca Rame.  Os dois faziam monólogos e era muito divertido.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?

Gosto muito do Grupo Galpão, que faz trabalhos inovadores e que tocam o coração das pessoas.

 

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?

Sim. Mesmo morando fora do País, sempre procuro saber o que fazem Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Marco Nanini, Fagundes e, é claro, acompanho tudo da Irene Ravache.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?

Espetáculos que contenham humor  e emoção, e que me levem a uma reflexão de forma espontânea e natural.  Quanto mais vivo, mais sinto que o teatro é poderosíssimo!

 

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? E qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?

Gosto de sentar na frente para ver os olhos do ator. Sempre foi assim. O pior lugar, para mim, é na ultima fila, no canto. Só fiquei uma vez neste lugar, para nunca mais ficar!!!

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?

Lembro que eu adorava o Espaço Off, em São Paulo. Estar perto do publico me fascina. Não gosto de teatros em que fico muito distante da plateia.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?

Pode acontecer os dois casos. Um mau encenador pode colocar um bom texto no lixo. Um bom encenador  é um ponto importante de  coordenação entre todas as partes integrantes da ficha técnica e é um ponto de equilíbrio. 

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

Não existe isto para mim. Meu sonho é viver o  momento presente da melhor forma. E faço das minhas apresentações, seja em empresas, domicilios ou em teatro, o melhor que posso, pois sei que estou vivo hoje.

 

Cite um cenário surpreendente.

O cenário do espetáculo “Bella Ciao”. Era muito simples e, por isso, surpreendente.

 

Cite uma iluminação surpreendente.

As do Maneco Quinderé eram surpreendentes

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.

O Pedro Paulo Rangel em “A Aurora da Minha Vida”. Sabia que ele era muito bom ator, mas esse foi um momento genial.

 

O que não é teatro?

Um espetáculo que não tenha comunicação com a plateia.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

Para mim, não. Não acho graça em, por exemplo, ver pessoas defecando em cena, mesmo que tenha um sentido. Agora, se alguém gostar de ver isso, por que não?? Há gosto para tudo, mas creio que não são muitas pessoas que gostarão de ver isso.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

Sempre haverá teatro na forma de um homem contar histórias para outros homens. Isto é humano, é da nossa própria condição humana. Homens falam, homens escutam.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?

As peças de Nelson Rodrigues e os textos de Woody Allen.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

Pedro Almodóvar e Antonio Naharro.

 

Qual o papel da sua vida?

O que faço no momento.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

Para Nelson: Você acha que o amor é maior do que a morte?

 

O teatro está vivo?

Sempre esteve, sempre vai estar, enquanto existirem seres humanos na Terra. E haverá sempre espetáculos excelentes, bons, médios e ruins. Mas o teatro vai estar sempre presente!

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