Juan Tellategui, aprendiz de Atuação da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, escreve sobre arte e teatro no blog Trilhos Urbanos. Na última terça-feira (21), ele propôs uma reflexão acerca do papel do teatro. Abaixo, a gente a divide com vocês, na íntegra:
Vale a pena falar de teatro?
Paciência. Escuta. Reflexão. Cuidado com o que se diz. Tudo pode lhe vir em contra. A cólera não pode trazer afirmações iracundas, sem fundamento. Quem não conhece, em primeiro lugar, antes de abrir a boca para falar alguma coisa, tem de estudar, tentar conhecer, para poder ter fundamentos na sua fala. Senão, tudo o que diz perde credibilidade. Eu não confio em quem fala sem saber, e só fala pelo fato de “provocar”. A quem? Para quê?
O teatro é, foi e será o caldo de cultivo de pensamento político em ação artística. Fala do homem. Das relações interpessoais. No nível do mundo privado (dentro da casa: com preocupações existencialistas, o consciente, o inconsciente) e social (o lugar do indivíduo na sociedade, a participação social e política transformadora).
O teatro não se discute. O teatro é. Não precisa se justificar, porque nunca vai deixar de existir. Teve mudanças ao longo dos tempos e foi tratando os conflitos que a sociedade na sua própria evolução foi tendo, refletindo junto dela as suas problemáticas.
Hoje, na sociedade que vivemos, onde as pessoas não precisam se ver para se comunicar, é claro que tem quem ache que o teatro não tem função alguma e que esteja obsoleto. Mas, e o cinema? O teatro não foi acaso a gênese do cinema e logo depois da televisão? Como vão existir? Claro, a animação hoje consegue reproduzir, quase à perfeição, a fisionomia humana. E a voz? Ah, os dubladores… Mas, mesmo assim, segue faltando aquilo que o teatro não negocia, que é a metafísica do presente do presente. E também, a saliva do ator caindo na pessoa que está na primeira fileira não tem como se reproduzir, mesmo com o cinema 4D, que já chegou até nós. Será que já estão pensando nisso também?
Vejo que não tem jeito. O teatro é parte inerente ao homem humano. O homem animal, que não tem desenvolvimento do seu raciocínio, talvez possa ignorar a existência dele (o teatro) e, mesmo assim, todas suas ações serão a mímese do que ele veja ao seu redor. Dessa forma, poderá adquirir conhecimento a partir de processos cognitivos, como acontece com as crianças, ou não.
Vale a pena falar de teatro? Sim. Sempre vale a pena porque, ainda hoje, no meio da tecnologia e de todas as ofertas espetaculares (no sentido semântico da palavra) de lazer, é uns dos meios que, além de oferecer entretenimento, coloca um pensamento no meio do furacão de informações. Coloca o homem no meio do furacão de estímulos virtuais, coloca um espelho no espectador. E talvez seja isso o que incomoda tanto ao ponto de pretender que o pedido para que deixe de existir seja ouvido. Acaso a existência do teatro hoje não é uma provocação? Tão válida que, por seu próprio peso e história, merece ter um espaço ainda mais privilegiado.
A cidade de São Paulo produz, em média, 600 espetáculos por ano. Dos quais muitos deles são parte duma indústria cultural com a finalidade restrita de entreter. Teatro – mercadoria. Mas também tem do outro. É só se aproximar e tentar viver a experiência de entrar em contato com a convenção que propõe o objeto- arte teatral.
“A indústria cultural procura justamente a produção em série, para consumo imediato, atendendo a segmentos de consumidores. O teatro não pode ser feito para consumidores que buscam a satisfação de desejos fugazes, mas para homens e mulheres que busquem outras hipóteses de existir na sociedade e diante de suas próprias vidas. Ao desprezar a dimensão de teatro como produto a comercializar, o teatro que acredito deve buscar a liberdade da Arte, na qual a Sociedade pode realmente ser reconstruída”, diz Ivam Cabral, diretor da SP Escola de Teatro e ator fundador do grupo Os Satyros, na Praça Roosevelt, em São Paulo.
Eu consigo compreender quem pede para que o teatro deixe de existir. Consigo porque, da grande quantidade de peças que há para assistir, nem todas entram na categoria de “objeto de arte”. Não me imagino como fazem os júris de prêmios de teatro para conseguir ter um consenso nas escolhas das nominações e muito menos quando se trata de um júri com um número de pessoas que se contam com uma mão só.
Mesmo assim, com tanta coisa em contra, eu vou defender o teatro, sim. Eu vou criticar, vou discordar, vou aceitar ou rejeitar o que meu bom senso, conhecimento e estudo mandem. Porque, sim, vale a pena refletir. Porque o teatro gera e propõe esse confronto entre eu e o outro. Entre meu ego e eu. Entre meu ego e o outro. Entre um e outro. Todos contra todos. Com tolerância e respeito. Não é assim acaso que se constrói o bom senso?
“Nosso critério não é o de escolher papéis, mas procurar peças que queiram dizer alguma coisa. Fazer teatro é um destino”, diz a atriz Fernanda Montenegro.
O destino do ator hoje é continuar olhando no olho. Onde tudo é impessoal e genérico, trabalhar com emoções reais e particulares. Resgatar a singularidade que nos individualiza e dizer ao homem alienado quanto há de humano nele. Quanto de sensível. Quão erráticos somos os homens que precisamos ainda, com tudo o que evoluímos, equivocar-nos em primeira pessoa para aprender alguma coisa.
O teatro está como alternativa a esse errático rumo alienado de consumo e de informações vazias de sentido. Os custódios do teatro, os olhos guardiões, são os atores. O ator faz da observação um instrumento de trabalho. Tudo que está à sua volta – expressões faciais, gestos, tons de voz, sotaques, trejeitos – pode ser usado futuramente na composição de um personagem para falar de alguma coisa que valha a pena ser dita.
Cuidado com o que diga, a próxima fonte de inspiração pode ser você…
PS: Na última edição da Revista Sala Preta (que para quem não conhece, é uma publicação anual do programa de pós-graduação em artes cênicas da Universidade de São Paulo, onde se podem encontrar os mais variados artigos sobre pesquisa científica e pensamento teatral que se iniciou em 2001) encontrei um texto de Walter Lima Torres Neto, “O Direito ao Teatro”, que dialoga muito com o tema aqui em questão e, claro, com a abordagem de pesquisa nas fontes referentes a um estudo erudito.
Convido a você, caro leitor de Trilhos Urbanos, a dar uma volta pela Sala Preta e ver o que está se discutindo hoje em dia, em teatro, ali poderá constatar quanto o teatro tem avançado, quanto reflete sobre si mesmo e quais são as perspectivas dos novos rumos.