
Antonio Martinelli, por Bob Sousa
A pandemia da Covid-19 deixou marcas profundas no corpo social e individual, e é justamente a partir dessas cicatrizes que o espetáculo Poema se ergue como um potente ritual de memória e resistência. Inspirado na obra Tetralogia da Peste [+dois tempos, uma cidade], do escritor, jornalista e poeta Antonio Martinelli, o solo de Edjalma Freitas, com direção de Quiercles Santana, transforma a dor em matéria poética e política. Neste encontro, conversamos com Antonio Martinelli sobre os atravessamentos que deram origem à sua escrita, o papel da literatura e da arte na elaboração dos traumas coletivos e a urgência de manter viva a memória daqueles que foram silenciados. Como pensar poesia após a peste? Como resistir ao apagamento? São questões que guiam este diálogo necessário.
Bob Sousa – Sua obra “Tetralogia da Peste”, publicada pela N1 Edições, surgiu em meio ao caos da pandemia. Como foi o seu processo criativo nesse contexto de isolamento, medo e perdas? Que desafios e necessidades moveram a sua escrita naquele momento?
Antonio Martinelli – Eu a escrevi como quem realizava diariamente “a autópsia do ser vivo”, como quem, diante de tantas mortes, seguia tentando entender até quando, se e como estaríamos vivos, e se sairíamos dessa. Eu os escrevi quase em tempo real, nos primeiros dias, semanas e meses da pandemia, são “poemas de situação”, que nascem da pressa daqueles que estão vivos mas sabem que podem morrer em breve. E fui deitando tudo no papel, enquanto assistia os corpos também deitarem em valas comuns: seus cheiros, seus volumes, seus nomes tomavam de assombro meus metros quadrados. Eu registrava aquilo que via e sentia, sem filtros, fora e dentro do meu corpo, porque tudo o que assistíamos e víamos doía muito em nós, era de uma proporção de sofrimento até então inimaginável, era uma tragédia real, total, e não era teatro, fedia e contaminava a tudo e todos.
Portanto, esses longos “poemas de situação” carregam em sua embocadura um vocabulário pandêmico, cru e cruel. Pois todas as imagens que eu assistia nas telas, tudo o que eu lia, sonhava – seja na vigília ou nos pesadelos das noites mal dormidas – foram se metaforizando em mim. E estes poemas rebentaram como se as veias do meu corpo inchassem e depois rasgassem meu peito… foram um jorro de desespero, ódio e indignação, sabe?!
Então, quando eu comecei a escrevê-los, fixei meu olhar na geografia e nas pessoas de quatro diferentes lugares do mundo: Bérgamo, Brasilândia, Manaus e Guayaquil, cada qual por uma diferente razão e escolha, e todos por um diferente erro terrível de uma mesma tragédia. Assim, “Tetralogia da Peste” construiu uma geografia do desamparo de coisas, corpos e de nomes, todos abandonados à sorte e à condição da vulnerabilidade que uniu o mundo todo sobre um mesmo véu de sofrimento.
B.S. – “Poema” aposta na memória como ferramenta de resistência e transformação. Na sua visão, qual é o papel da literatura e da arte no enfrentamento de traumas coletivos como o que vivemos? É possível criar sem o compromisso com a memória?
A.M. – Bem, naquele momento eu nem pensava nisso, mas, sim, de forma utópica, um tanto romântica – e talvez seja isso também o que me manteve em pé e vivo – eu escrevi uma pequeníssima memória daqueles dias em que parecia que os fins do tempo estavam próximos… talvez, inconscientemente, eu desejasse que, se tudo terminasse bem, esses escritos pudessem um dia serem lidos, ouvidos, ou vistos em cena. E talvez eles tenham nascidos já assim, desejosos que pudessem evitar que erros fatídicos não se repetissem ou se repitam mais, que tragédias como aquela, ou novas tragédias aconteçam. Mas eu não sei se acredito nisso! [risos] Como eu digo num dos poemas, se a arte é quem imita a vida, que possamos fazer ao menos memória. Que possamos sempre lembrar das cidades que abandonaram seus doentes em cima das macas, seus mortos à decomposição; e de como os sistemas, as crenças, e as políticas todas daquele momento nos colocaram ainda mais próximos do ponto zero, à beira de um colapso. Pois, não podemos nos esquecer que não eram só corpos, mas um mundo em decomposição que vivíamos [e ainda estamos vivendo], que derramava nas ruas um líquido que espalhava veneno e mau cheiro por todos os lados. Então é isso? Para que não mais, como em Auschwitz ou em Ruanda? Para que não mais aconteça, não é, como em Mariana/Brumadinho, como no desastre das minas de Mount Polley [no Canadá] ou ainda nas minas de diamantes em Williamson [na Tanzânia]?! E daí eu me pergunto, o ator da peça se pergunta, nos pergunta: O que canto em “Calvário”, o poema sobre Guayaquil, não parece em tudo o mesmo terror do vivido no genocídio que o Estado de Israel está promovendo em Gaza?! Ou ainda na invasão e Guerra da Rússia contra a Ucrânia? O que se repete não é um conteúdo antigo? Então a memória serve para ser a antítese do gesto de apagar.
B.S. – No espetáculo, há uma pergunta fundamental: depois da pandemia, a poesia ainda é possível? Para você, que escreve sobre a dor e a urgência da vida, que tipo de poesia se faz necessária hoje? Como a pandemia ressignificou o seu olhar sobre a palavra poética?
A.M. – Eu acredito que sim, a arte e a poesia ainda nos são possíveis, e enquanto houver vida humana, sempre serão possíveis, não?! Não acredito que necessárias, nem que utilitárias, mas possíveis, sim, claro. Eu lembro que, naquele momento em especial, eu dei meu pior e meu melhor, tudo o que me era possível, sem muito pensar se haveria este hoje que estamos vivendo, e que, ironicamente, um dia chamamos de “novo normal”. [risos]. Eu também oscilei entre pensar que todos nós morreríamos – e de alguma forma morremos, não? [risos]… Ou, no mínimo apodrecemos ainda mais, nos estragamos mais e mais e fizemos o mesmo com o planeta, pois fizemos as escolhas erradas, pelo tempo do descontentamento, do desencanto e da insensatez.
No poema [dois tempos, uma cidade], que fechava o livro [e que não entrou no espetáculo Poema] eu perguntava: “Com o perplexo dissipado, seguiremos de onde paramos?”; e ainda: “Anuviados, ainda teremos o mundo diante de nós?”. Eu confesso que, às vezes, até cheguei a sonhar que faríamos a viragem – para algo melhor, novo, um recomeço -, que definitivamente e lamentavelmente não aconteceu.
B.S. – Além da obra que inspira o espetáculo, você escreveu e lançou um segundo livro na pandemia: [gaia], pela Editora Quelônio. De que forma os dois livros se conectam: Tetralogia da Peste [+dois tempos, uma cidade] e [gaia]. Como esses dialogam entre si? Que camadas ou perspectivas cada um acrescenta à compreensão da pandemia e do planeta atravessado pelo trauma?
A.M. – Em [gaia] o que está em jogo é a concreta, real e irrecusável responsabilidade da humanidade e sua relação destrutiva com a natureza. Neste meu segundo livro, o que talvez aconteça é que eu abandono o sobrevoo mais rasante sobre as cidades afetadas pela crise sanitária e humanitária, e tento olhar o mundo, nossa Terra, Gaia, de uma perspectiva mais global, do ponto de vista ambiental, das contradições entre seres humanos e planeta… os poemas deste livro apontam para o fracasso do homem moderno “eterno criador de desertos”.
Voltando aos pontos da sua pergunta anterior, completadas por esta, creio que [gaia] não nasceu na urgência, teve um tempo de decantação, sendo formatado e pensado, construído, escrito e reescrito durante muitos outros meses do nosso isolamento pandêmico. Este segundo livro reúne poemas em que a voz do eu-lírico se constitui de maneira mais filosófica, um tanto visionária, tentando ser cósmica [embora mantenha certa linha telúrica, e, claro, política]. Mas meus escritos e minha forma de indagar passaram a ser outra, realmente eu tentei entender algo maior que a contagem dos mortos, a micro ou macro política e a necropolítica… me interessou investigar as contradições da Gaia contemporânea e de como o humano estava se portando em sua tarefa paradoxal de ocupá-la, preservá-la e ao mesmo tempo consumi-la.
Então, de alguma forma, os poemas foram uma tentativa de elencar os dilemas do humano na era do Antropoceno, quando a racionalidade, a civilização e a ciência atingiram níveis de excelência, mas não conseguiram universalizar suas conquistas e de domar seus impulsos ambivalentes, a competição pelos recursos naturais fináveis, no ponto máximo de exaustão da Terra, do planeta.
Captação e edição de vídeo: Pedro Hamazaki