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VER O OUTRO: Bob Sousa entrevista Patty Pantaleão

Publicado em: 12/08/2025 |

Em um mundo cada vez mais acelerado e saturado de estímulos, a artista Patty Pantaleão convida o público a um mergulho em outro tempo e outra lógica. Mestre na manipulação de bolhas de sabão, ela transforma a leveza em linguagem e a poesia em gesto, criando um espetáculo interativo que transcende o entretenimento e se propõe como experiência sensorial. Misturando elementos do circo, da mágica, do improviso teatral e da performance poética, Patty abre espaço para o encantamento e a presença, resgatando, como ela mesma diz, “o poder criativo de cada um”. Com mais de 4 mil espectadores desde sua estreia em 2023, a obra, que se reinventa a cada apresentação, celebra a impermanência e a beleza do instante. Nesta entrevista, a artista compartilha os bastidores de sua criação e reflete sobre a arte como caminho para um estado de sonho e reconexão com o sensível.

Bob Sousa – Seu espetáculo rompe com muitas convenções da mágica tradicional e das artes cênicas. Como nasceu esse desejo de transformar as bolhas de sabão em protagonistas de uma experiência sensorial?

As bolhas sempre me pareceram pequenas obras de arte vivas — frágeis, imprevisíveis e hipnotizantes. O desejo nasceu quando percebi que elas não precisavam ser apenas um truque ou um detalhe de cena, mas podiam contar histórias, provocar emoções e criar um universo inteiro. Quando vi um espetáculo na Broadway, em 2015, percebi que havia ali uma poesia que eu queria explorar no meu próprio tempo, com a minha linguagem e o meu olhar. Desde então, transformei as bolhas em protagonistas, permitindo que elas sejam, ao mesmo tempo, matéria e metáfora para o que é efêmero e precioso na vida.

Bob Sousa – Você afirma que não segue uma coreografia fixa, deixando as bolhas, o espaço e a plateia guiarem a performance. Como é para você criar nesse estado de presença constante, onde tudo é improvisação?

É como dançar com o vento. Eu nunca sei para onde ele vai soprar, mas estou pronta para seguir. Trabalhar nesse estado de presença é um exercício de escuta profunda, não só das bolhas, mas também de mim, do público e do ambiente. Cada apresentação é única, porque cada bolha nasce diferente e cada plateia tem sua própria energia. É um jogo entre controle e entrega, técnica e instinto. Isso mantém tudo vivo, pulsante… e também me lembra que a beleza está justamente naquilo que não se repete.

Bob Sousa – Sua trajetória envolve múltiplas linguagens: publicidade, mágica, palhaçaria, commedia dell’arte, improviso. Como essas formações dialogam no seu processo criativo e no resultado final do espetáculo?

Todas essas linguagens se misturam como ingredientes de uma receita que só faz sentido quando está completa. A publicidade me deu olhar para a narrativa visual e o impacto da primeira impressão. A mágica me ensinou sobre encantamento e sobre como criar um clima de mistério. A palhaçaria e a commedia dell’arte me lembram do riso, da presença física e da conexão com o humano. O improviso me dá liberdade para criar e viver o momento. No espetáculo, essa mescla acontece de forma orgânica.

Bob Sousa – Ao propor uma pausa no tempo e um convite ao sonho, sua obra parece também responder a uma urgência do nosso tempo. Qual é, para você, o papel do artista em um mundo acelerado e hiperconectado?

Acredito que o artista é um guardião de respiros. Em um mundo que nos empurra para correr sem parar, precisamos de espaços onde possamos desacelerar e nos reconectar com aquilo que é simples e essencial.  Poder criar momentos de presença genuína é uma das grandes missões de um artista.

Bob Sousa – Depois de mais de quatro mil espectadores, o que mais te surpreende na reação do público? Há algum momento marcante que ficou na sua memória e que resume a potência do que você busca provocar?

Agora já são quase 10 mil.

Me surpreendo em como cada pessoa realmente é tocada de maneira única, não importando a idade. Isso me motiva muito!

Alguns momentos que guardo com carinho:

Depois de um espetáculo, uma senhora me disse: “Obrigada. Eu tinha esquecido como é sonhar acordada”.

Um pai veio chorando dizendo “Minha filha raramente sorri, hoje pude vê-la sorrindo e vibrando com as bolhas. Isso foi mágico!”

Uma menina autista veio muito feliz me abraçar e disse: “ Hoje é o dia mais feliz da minha vida!”

Meu trabalho não é apenas criar bolhas de sabão é criar mundos que duram segundos, mas que se tornam eternos no coração de quem vê.