Bete Dorgam é atriz.
Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Desde pequena minha mãe estimulou meu interesse; comecei a frequentar teatro aos quatro anos e não parei mais!
Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
“Intriga e amor”, de Schiller (Teatro TAIB); me lembro de lindas imagens e do Jacques Lagoa bem jovem, lindo em cena, arrebatado!
Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
“Arena conta Zumbi”, de Gianfrancesco Guarnieri, músicas de Edu Lobo: me mostrou uma nova possibilidade, atores-coringa, música cantada como texto teatral, muito instigante e, na época, novo!
Um espetáculo que mudou a sua vida.
“Missa Leiga”, de Chico de Assis, montagem clássica, com Armando Bógus, Rachel Araujo e um elenco maravilhoso. Uma linda e intensa celebração da vida, do amor e da dignidade humana. Senti que queria fazer aquilo também: maravilhamento e comoção.
Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Não.
Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?Teatro ou cinema? Por quê?
Sai, durante o Festival de Teatro de Curitiba. Era uma peça horrível,violenta,incompreensível; não me deu vontade de continuar assistindo àquilo, era muito ruim. Foi a única vez.
Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
“Avenida Dropsie”, da Sutil Companhia de Teatro, é uma das peças da qual gostaria de ter participado.
Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
“Missa Leiga”, assisti umas dez vezes , até o dia em que minha mãe proibiu (eu devia ter uns 15 anos). Era apaixonante, eu me identificava totalmente com o espetáculo, foi um deslumbramento.
“Arena conta Zumbi”, umas quatro vezes, pelo mesmo motivo.
“Palhaços”, de T.Whebi, com Dagoberto Feliz e Danilo Grangheia, uma aula de interpretação de dois grandes atores e uma excelente direção de Gabriel Carmona
“Othelo”, direção de Marco Antonio Rodrigues, com o Folias, montagem única, inesquecível, camadas e camadas escavadas com paixão e requinte.
Qual companhia brasileira você mais admira?
O Folias é uma companhia com a qual me orgulho de ter trabalhado durante dez anos. É de uma extrema importância para o teatro brasileiro, tem uma trajetória coerente, digna, corajosa, assim como outras companhias . Não posso destacar apenas uma.
Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?
Do Folias, com certeza, pela proximidade e identificação. Todos os trabalhos de Cristiane Paoli-Quito também me mobilizam. Adoro os trabalhos de Esio Magalhães, Parlapatões, Cia. São Jorge, Cia. do Feijão, da Sutil, da Cia. dos Atores, muita gente maravilhosa.
Qual gênero teatral você mais aprecia?
Não tenho preferência, não gosto de espetáculos banais.
Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Em qualquer lugar que me proporcione uma boa visão do espetáculo.O pior lugar é aquele que não permite uma boa fruição do trabalho.
Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
Tive a sorte de trabalhar em lugares maravilhosos, por motivos diferentes: no Galpão do Folias, no Teatro do Sesi, teatros do Sesc. O pior lugar foi um teatro na cidade de Tupã, uma vergonha, não tinha nem banheiro para os atores; fomos orientados para fazer xixi no matagal ao lado. A grama invadia o “palco”, um puxado de cimento sujo. Um horror, uma vergonha.
Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou? Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Claro que existem peças ruins. E encenadores equivocados também.
Quanto à peça de meus sonhos,sinceramente não sei responder.
Cite um cenário surpreendente.
“Othelo”, do Galpão do Folias, e “Avenida Dropsie”.
Cite uma iluminação surpreendente.
“BR-3”,criação de luz do Guilherme Bonfanti.
Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Suzana Alves, em “O Casamento Suspeitoso”.
O que não é teatro?
O que é feito para enganar o público , para ser apenas um caça-níqueis ou para fazer brilhar o ego de quem criou.
A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Tudo o que é bom, que mobiliza, que afeta, que contribui para a criação da obra poética teatral, cabe.
Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Acredito que o teatro é eterno, necessário para que o homem se veja, se repense, se refaça. Claro que há mudanças, cada época tem o teatro que lhe corresponde.
Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
“Hamlet” (Shakespeare), “O Auto da Compadecida” (Ariano Suassuna), “A Vida é Sonho” (Calderón de La Barca).
Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Seria injusto, há muitos.
Qual o papel da sua vida?
Sempre me apaixono pelo personagem que estou pesquisando.
Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertolt Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire. (Por favor, explicite para quem é a pergunta)
Shakespeare: se o senhor vivesse atualmente, haveria algum personagem contemporâneo digno de ganhar uma peça sua?
O teatro está vivo?
Doente, mas está.