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Repertório para o Experimento

Publicado em: 07/11/2011 |

Artistas e estudiosos de diversas áreas foram recebidos pela SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco para ministrar palestras ao longo deste semestre. Assim, os aprendizes do Módulo Amarelo (vespertino) tiveram contato com várias outras opiniões e ideias sobre a narratividade e temas relacionados ao livro “Viva o Povo Brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, elementos que norteiam os estudos destas turmas.

 

O escritor, pintor, desenhista, cenógrafo, ensaísta e videomaker Nuno Ramos foi o primeiro convidado. No dia 12 de agosto, sua palestra girou em torno da produção artística no Brasil. Oferecendo um panorama bem amplo sobre o assunto, discorreu sobre a falta de captação da energia criativa que afeta o País, as modificações que a arte sofreu nos últimos tempos, a maneira como os artistas brasileiros se relacionam com suas influências, e o compromisso que a arte tem com a política, entre outros.

 

“Somos ousados e poderosos no sentido de criar, mas, curiosamente, também somos autodestrutivos ao usar o que fizemos. No Brasil, nada dura, não temos captação da energia criativa”, afirmou Ramos durante a conversa.

 

Logo na sequência, naquela mesma tarde, o antropólogo especializado em etnologia Pedro Cesarino se tornou o centro das atenções no pátio da Escola. Com o tema “Matrizes Narrativas no Brasil”, o convidado começou falando sobre o conceito de identidade nacional, a diferença entre os conceitos de pessoa e indivíduo, e, principalmente, sobre o trânsito de narrativas entre povos de culturas e línguas diferentes.

 

“Essa figura do indígena que conhecemos hoje é exemplo de uma formação ‘engessada’ da identidade. Não existem muitas referências confiáveis sobre as línguas e narrativas ameríndias. Por isso, educadores devem adquirir repertório para entender essa semiodiversidade”, relatou Cesarino, após introduzir o público em sua pesquisa sobre os Marubo do Vale do Javari, uma tribo indígena amazonense.

 

Para ampliar ainda mais o leque referencial dos aprendizes, no dia seguinte (13/8), mais duas palestras movimentaram a Escola. A primeira foi da professora e pesquisadora em comunicação Malena Contrera. O eixo da conversa foi a centralidade que a narrativa ocupa na vida humana.

 

Dentre outros assuntos, Malena falou sobre a importância da narrativa, mitologia, resiliência, estrutura de pensamentos e o valor do texto e das imagens na narrativa. Ao término, ainda lançou uma provocação aos espectadores: “Procure fazer do seu grande meio de comunicação, o lugar onde você está, a sua presença, aquilo que você quer transformar e aquilo que você quer ressignificar, onde quer que esteja e para qualquer pessoa. Essa é minha provocação e desafio: qualifique o seu estar no mundo!”

 

O segundo debate do dia contou com a participação do dramaturgo Lauro Cesar Muniz, que expôs a falta de ideal da geração contemporânea, a identidade do País, a ditadura e, sobretudo, a dialética do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel, na qual se inspirou em seu trabalho como autor.

 

“A dialética é um instrumento de análise da natureza que utilizo para compor um mundo fictício e está, para mim, como uma oração está para os católicos. É um método fascinante que ajuda a compor o conflito e a ficção”, explicou Muniz.

 

Já no dia 18 de agosto, os encontros tiveram continuação com a presença do diretor Marco Antonio Braz e da diretora e atriz Georgette Fadel. Nelson Rodrigues, Bertolt Brecht, a estrutura do gênero épico/narrativo e a utilização dos elementos dessa escola teatral em obras de outro estilo, foram os assuntos abordados por Braz. Enquanto isso, Georgette se estendeu sobre vários temas, da estrutura e concepção artística de coletivos teatrais até a narratividade.

 

Alexandre Mate foi outro dos convidados que passaram pela Escola. No dia 25 de agosto, o pesquisador adentrou o teatro grego para fazer uma abordagem histórica do épico, ressaltando a capacidade de reflexão que o gênero deve suscitar nas pessoas.

 

Todos esses encontros serviram como bagagem para os aprendizes, que, agora, estão chegando ao final do Experimento, tendo como desafio apresentar, ao longo dessa semana, cenas baseadas no livro de João Ubaldo Ribeiro e na narratividade. Veja aqui os vídeos de cada um desses encontros. 

 

 

Texto: Felipe Del