Por Vicente Concilio
Especial para o portal da SP Escola de Teatro
No último sábado (23), Vicente Concilio, ator e professor da área de Teatro-Educação do Departamento de Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), esteve na sede Brás da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, para acompanhar de perto o terceiro e último Experimento do Módulo Azul. A seguir, ele conta suas impressões sobre a experiência dramatúrgica do evento.
Estratégia típica do teatro de nosso tempo, a criação de um texto que surja da cena, e não o contrário, produz uma série de formas, que esgarçam a visão tradicional do texto dramático. Isso promove uma série de estruturas híbridas, que possuem, em comum, sua origem processual (textos oriundos de trabalhos práticos com evidente participação dos atores e diretores) e seu efeito de autenticidade, único e peculiar, quase como se tal texto só fizesse sentido quando encenado apenas por aqueles que foram co-autores de sua criação.
Essas indagações permearam os experimentos apresentados na SP Escola de Teatro durante o sábado (dia 23).
Nos textos construídos em parceria entre os dramaturgos e outros artistas da cena, perde o sentido a tentativa de enquadrá-los em gêneros específicos. Épico, lírico ou dramático? Cômico ou trágico? Dialógico ou poético? Não há como saber. Nessa transgressão das formas estabelecidas reside uma contribuição instigante da dramaturgia processual: sua autenticidade é resultado da polifonia que lhe dá origem. Suas formas são mais amplas que um formato prévio.
Mas há, na busca por uma suposta originalidade, um risco gigante do esvaziamento formalista. Não se trata de retomar a dicotomia entre forma e conteúdo. Forma é conteúdo. Mas o assunto, o tema, o ponto de partida sobre o qual se constrói o evento cênico também carece de atenção e solicita o mesmo cuidado que se dedica à estrutura formal.
As palavras, e como elas aparecem na cena, seja por meio de diálogos entre os atores, seja por vozes gravadas, seja por meio de falas dirigidas diretamente ao público, ou textos escritos e trechos que convidam o espectador à leitura, são hoje estratégias conscientes de um vínculo que se pretende construir entre os espectadores e atores.
Sobre “o que” se fala é tão importante quanto o “como” se fala. Nesse sentido, a sintonia entre os criadores, o objetivo comum sobre o qual se dedica tanto tempo de pesquisa e criação, deve consolidar, verdadeiramente, uma questão vital para todos os artistas envolvidos, na tentativa de potencializar os conceitos sobre os quais o texto se apoia. Texto esse que possui a vantagem de nascer a partir de experiência conjunta de criação, que pode ser constantemente testado e reescrito ao longo de um processo que comprove sua potência cênica. Tal estratégia evidencia um reconhecimento do poder do silêncio e do gesto na cena. O que amplia a força da palavra.
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