
Marcelo Marcus Fonseca, por Bob Sousa
Marcelo Marcus Fonseca, diretor e fundador da Cia. Teatro do Incêndio, retorna aos palcos com uma nova versão de São Paulo Surrealista – Corpo Antifascista, espetáculo que ao longo dos anos se consolidou como um marco da cena teatral paulistana. Em um momento em que o conservadorismo ganha novas formas e discursos, a peça surge como um ato de resistência poética, subvertendo imagens e convidando o público a participar ativamente da experiência cênica. Nesta entrevista, Marcelo comenta sobre a recriação do espetáculo, a potência política do surrealismo e o papel essencial da visualidade para romper as fronteiras entre cena, cidade e espectador.
Bob Sousa – Nesta nova versão de São Paulo Surrealista – Corpo Antifascista, como o uso da visualidade e das imagens sobrepostas ajuda a confrontar o conservadorismo contemporâneo e a provocar novas leituras sobre a cidade?
Marcelo Marcus Fonseca – Roberto Piva dizia que tinham tirado um pedaço do cérebro da população e que era justamente o pedaço responsável pela palavra poética, pela imagem. O Cancro das redes sociais que traz consigo uma epidemia de monólogos, de impossibilidade de dialética, de debate, de contracenação, contribui demais para a aniquilação da imaginação. Cada vez mais o pensamento se dá de forma literal, sem nuances. As pessoas vão perdendo a capacidade de pensar por imagens, pois tudo é imposto, a dopamina, dizem… A sugestão poética da imagem, a sobreposição de signos provocadas pelo surrealismo, liberta o inconsciente. O Consciente é dirigido, a emoção não. Reaprender a olhar com emoção é uma tarefa do Teatro. Só ele é capaz de devolver essa parte do cérebro retirada como projeto, pois hoje ou a pessoa segue uma fórmula de sucesso ou está cínica: ninguém mais aceita o confronto, pois é muito cômodo falar sozinho nas redes ou até em cena. O conservadorismo vive do isolamento e do ódio, não beija na boca, ele acredita no seu discurso moral, o que é uma admirável fé cênica que nem nós atores temos tanta…
Me falaram que a peça não fala de pobres outro dia. Claro, São Paulo esconde e varre a pobreza, é uma administração higienista. É de quem explora a miséria que eu quero falar, não da miséria. São esses que se dizem conservadores que cometem os maiores delitos contra o ser humano, são os vencedores e o verdadeiro fracasso da nossa raça humana: os que pregam para não fazer o que eles fazem escondidos. Essa São Paulo verdadeira que a peça busca, assombra os vanguardistas do Surrealismo, do Dadaísmo e do Modernismo que circulam por ela. Como disse Karl Valentim “O Futuro também era melhor antigamente”.
B.S. – O espetáculo propõe um ritual no qual o espectador se torna parte da cena, inclusive com a exigência do figurino. Como você enxerga essa quebra da passividade da plateia e que impacto espera gerar nesse encontro entre ator, público e cidade?
M.M.F – Essa ideia é do Jean Genet. Ele escreveu numas de suas notas que o público deveria ir fantasiado ao teatro, pois a plateia tem o direito de ser louca. Disse que quanto mais sério o espetáculo, mais o espectador deve se vestir pra afrontar aquilo que tenta se impor como discurso único. Entendo, dessa forma, que o teatro não pode ser maniqueísta. Cada um tem que fazer sua peça na plateia. Um teatro dialético é um teatro democrático, que provoca o pensamento livre e evoca memórias pessoais. Ao se preparar em casa para ir ao teatro, atravessar a cidade, a atitude da pessoa já começou. Ela saiu do seu normal, criou, agiu. Enfrentou o bom comportamento, essa maldição medieval imposta pelas normas sociais falsas. Nossos problemas reais não estão na forma que nos comportamos ou no tanto que bebemos ou fumamos, mas estão justamente nos códigos de condutas de deputados transfóbicos, racistas e patriotas. No teatro a palavra e o corpo reencontram seu significado oculto na falsidade do dia a dia. O peso da palavra se revela novamente, o peso da memória pessoal, de cada espectador e espectadora. Para os cristãos, o teatro revive a cada encenação a delícia do Pecado Original. Vestir-se fora do padrão é uma pequena transgressão, mas que mexe com o lado direito do cérebro.
B.S. – A narrativa do espetáculo se constrói por meio de colagens e da escrita automática, elementos típicos do surrealismo. Como foi o processo de criação dessas imagens e textos junto ao elenco e de que forma essa construção coletiva influenciou a estética final da montagem?
M.M.F. – Essa peça foi escrita por muitos autores no tempo e no espaço. Foi feita totalmente em sala de ensaio, seguindo o rito surrealista de escrita automática e impulso psíquico dentro da condução da direção. Só olhei pra ela depois de pronta. A linha narrativa foi acrescentada após o texto passar pela experiência de todo elenco, isso em 2011. Mas não é uma loucura desleixada. A dramaturgia se impôs no final para criar algo, não digo lógico, mas acompanhável, de certa forma, como os filmes de Buñuel ou Jodorowisk. É preciso lembrar que teatro se faz para o público, sempre. Mas é uma obra que passou por transformações em suas 5 temporadas. Ela tem essa abertura na estrutura, no seu esqueleto, de acompanhar, sem babaquice de ficar tentando “ser atual”, de ajustar seu discurso ao momento presente. É nesse sentido que ela retrata a São Paulo que sentimos hoje. As palavras de Antonin Artaud de quase um século atrás soam terrivelmente modernas ao nomear a “cachorrada fascista”. No fundo, toda visualidade, toda escolha estética, vem da palavra poética, da imaginação.
B.S.O Teatro do Incêndio, além de palco para os espetáculos, é também um espaço de residência, criação e formação artística. Quais os desafios para manter um espaço independente como este em São Paulo e qual a importância de preservar esses territórios culturais na cidade?
M.M.F – Desde que nasceu, o Teatro do Incêndio, ainda quando não tinha sede, foi um lugar de abrigo da vocação, um lugar de começar para quem busca existir. É assim agora e isso implica num modo de produção quase amador. Sempre que possível, recebemos coletivos para ocupar o espaço fora dos nossos horários de trabalho, tentando promover alguma condição para fortalecer o trabalho de quem está sem alternativa. Mas é muito pouco o que o que dá pra fazer. Acho que todo mundo deveria ter um espaço. Isso é até mais importante que edital. Um espaço te dá perspectiva. No momento atual, os governos estão fechando teatros, quando deveria promovê-los, criá-los aos montes. Mas o teatro é justamente o local do encontro, da morte do isolamento, da alegria, tudo que atrapalha eleições de ódio.
Não é fácil manter um espaço, pois você vive pra ele e você está sempre pra falir. Mas como somos contra a morte, a favor da vida, a gente não fecha nunca. Quem tem um espaço sabe do que falo. Viver é quase uma vingança divertida nessa sociedade castradora e preconceituosa.
É importante dizer que toda ação no teatro é decorrente de seu projeto estético. Não somos um projeto social e nem queremos ser associados a isso. Os projetos de formação, rodas de conversa de preservação da cultura tradicional popular, projetos de acolhimentos de grupos ou outras oficinas que promovemos, tudo está intimamente ligado a necessidade de cada proposta estética para espetáculo ou pesquisa de espetáculo. Tudo tem a ver com a cara do grupo. Por isso tentamos que permanecer em cartaz a maior parte do ano, pois é isso que fazemos, teatro. Ter um espaço e não produzir peças, mesmo por bilheteria, é um desrespeito a quem não tem espaço, acho. Mas falo no meu nome e cada um sabe onde o calo dói.