EN | ES

VER O OUTRO: Bob Sousa entrevista Silvia Gomez

Publicado em: 16/06/2025 |

Silvia Gomez, por Bob Sousa

“Lady Tempestade” é um espetáculo que nos convoca a encarar o passado sem desviar os olhos, conectando memórias, documentos e experiências que atravessam gerações. Com dramaturgia de Silvia Gomez, direção de Yara de Novaes e atuação potente de Andrea Beltrão, a peça constrói um diálogo visceral entre os relatos da advogada pernambucana Mércia Albuquerque — defensora incansável de presos políticos durante a ditadura — e os dilemas atuais sobre justiça, violência e memória. Ao entrelaçar os diários de Mércia com a jornada da personagem A., Silvia cria uma estrutura narrativa impactante, que desafia o tempo linear e convoca o espectador a não esquecer. Nesta entrevista, conversamos com Silvia Gomez sobre os bastidores da criação, as escolhas dramatúrgicas e os atravessamentos pessoais que deram vida a “Lady Tempestade”, um projeto que agora também ganhará as telas do cinema.

 

Bob Sousa – O uso dos diários de Mércia Albuquerque como ponto de partida é um dos aspectos mais fortes da peça. Como foi para você o processo de transpor esses registros pessoais para a cena teatral, e quais foram os maiores desafios para equilibrar o documento e a ficção?

 

Silvia Gomez – Acho que a primeira pergunta que se impôs tratou da natureza do material, pois um diário é um registro íntimo, fundamente pessoal, secreto. Como encontrar a vibração dramatúrgica nesse gênero? Outra pergunta: como estabelecer um diálogo poético, ou melhor, uma porção de invenção e ficção capaz de abrir as janelas do documento sem deixar de respeitá-lo? Porque era importante poder conversar com ele numa instância outra, camada de ficção que, por ser delirante, tenta justamente avistar as entranhas do real que o material apresenta – ou esconde.

Difícil também foi lidar com a sensibilidade do tema, essa ferida aberta em nosso país. Quanto mais eu lia sobre a ditadura, mais tinha a impressão de que precisava ler mil outras coisas, de que havia – e há – ainda muitas outras coisas escondidas, caladas, esmaecidas, borradas, rasuradas. Vasto, fundo, doído, sangrando, presente, coletivo.

Às vezes, vamos muito longe procurando por respostas quando elas estão logo ali.  Depois de muita pesquisa, entrevistas, leituras, trocas, foi preciso lembrar que dramaturgia é também ponto de vista, um recorte. E nosso recorte era o diário da Mércia. E, ainda, dentro desse recorte, outros recortes em busca dos pontos mais dados à dramaturgia. Me lembro do dia em que li sobre uma das vezes em que Mércia foi presa e teve que deixar o filho recém-nascido sozinho em casa. Ali encontrei uma porta de entrada, um movimento que acabou direcionando o fio da narrativa.

Isso tudo para dizer que o que parecia a dificuldade da coisa acabou sendo sua própria resposta: o diário de Mércia estava vivo e se deslocava no tempo, falava conosco e definia sua ação.

 

B.S. – Em “Lady Tempestade”, passado, presente e futuro se confundem, criando um tempo dramatúrgico híbrido e perturbador. Como você construiu essa estrutura temporal e o que ela revela sobre o modo como o Brasil lida — ou não lida — com a própria memória?

 

S.G. – Em muitos momentos, ler o diário da Mércia foi como receber um telefonema do passado… No presente. Me lembro de estar trabalhando em determinado dia de 2023 quando lia a mesma data do mês, mas em 1973. Cinquenta anos nos separavam, mas as notícias de violência e modus operandi da polícia, principalmente para determinada parte da população, pareciam se repetir. Basta ler estudos como o dos anuários de segurança pública para entender o terror da violência racial em nosso país, por exemplo. As mães desesperadas descritas no diário da Mércia estão também aqui, agora.

De repente, durante a escrita, o tempo verbal ficou confuso, rebelde. Reescrevia no futuro o que tinha acabado de ler no passado, como se a forma pedida pelo material estivesse tentando traduzir esse looping de terror que parece ser a nossa história. Se tema é forma, a forma da dramaturgia ali passava por esse tempo híbrido que você descreve, estrutura que nos confronta aqui, no presente em que nos encontramos. Como se Mércia nos ligasse: trimtrimtrim, como estão as coisas aí, no futuro?

 

B.S. – A peça apresenta uma mulher comum que se torna heroína, mas cuja história permaneceu invisível por muito tempo. Na sua opinião, o que faz com que tantas mulheres fundamentais, como Mércia, sejam sistematicamente esquecidas pela história oficial, e como o teatro pode contribuir para reverter esse apagamento?

 

S.G. – Essa é outra história que se repente: a do apagamento das vozes das mulheres. Basta pensar em nomes de diferentes áreas para constatar. Basta pensar nas premiações, nos registros, nas homenagens, nos monumentos. O sistema funciona muito bem, e sem alarde, para que isso aconteça. O crime perfeito, engrenagem secular, estrutural.

Quando Yara de Novaes descobriu sobre Mércia Albuquerque, porque estava fazendo um filme sobre o estudante mineiro José Carlos da Mata Machado, se perguntou: por que não sabemos nada sobre essa mulher, que foi responsável por permitir que o corpo de José Carlos pudesse ser enterrado pela família?

Quando Yara me chamou para a peça, no final de 2022, eu tive vergonha de não saber quem era Mércia, sentimento que crescia à medida que lia sobre ela. Como você definiu, Mércia foi uma mulher em ato de “amor radical”. Ela agia. Recebeu a ligação do seu tempo, sua época, e atendeu, respondeu com coragem e grandeza.

Me dá uma alegria imensa e uma gratidão sem tamanho pensar que, de alguma maneira, essa história em torno de sua memória me aceitou como parte da equipe. Que sua memória se expanda em muitas outras possibilidades, biografia, livro, conversa, o que for, mas, sobretudo, ação no coração das pessoas.  Como ela escreveu: “há muitas formas de acreditar na vida”. Lembrar é uma delas. Lembrar é também agir, assim como imaginar.

 

Captação e edição de video: Pedro Hamazaki