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A Troca Dialógica É Azul

Publicado em: 20/03/2012 |

Experimentar. Segundo o dicionário, esta palavra significa, entre outras coisas, “ensaiar, verificar as qualidades de, pôr à prova; experimentar uma ponte. Conhecer por experiência, sentir: experimentar alegria. Sofrer, suportar: experimentar dificuldades”. Com isso em mente, os aprendizes do Módulo Azul (período vespertino) da SP Escola de Teatro — Centro de Formação das Artes do Palco se reuniram, no último sábado (17), para abrir seus processos artísticos ao público durante o Território Cultural.

 

Para iniciar a programação do dia, o diretor executivo da Escola, Ivam Cabral, o coordenador pedagógico, Joaquim Gama, além de coordenadores e formadores dos Cursos Regulares, conversaram com os aprendizes sobre o conceito de Escola Livre adotado pela Instituição. Gama, então, leu um manifesto sobre a responsabilidade social do artista e apresentou o pano vermelho que ficará estendido na recepção do prédio por tempo indeterminado, como símbolo de atitude e preocupação social.

 

Ivam deu sequência à reflexão recitando o poema “Elogio ao Aprendizado”, de Bertold Brecht: “…Não se envergonhe de perguntar, camarada! / Não se deixe convencer! / Veja com seus próprios olhos! / O que não sabe por conta própria, não sabe / Verifique a conta, é você que vai pagar / Ponha o dedo sobre cada item / Pergunte: o que é isso? / Você tem que assumir o comando”. 

 

Ainda durante o encontro, os aprendizes receberam um folheto intitulado “Algumas Palavras sobre Escola Livre”, no qual o diretor executivo discorre sobre a concepção desse modelo pedagógico, que “nos permite aproximar o ideário de liberdade, presente no campo das artes, à profissionalização do artista”. Segundo Ivam, a ideia de liberdade deve ser estimulada com critério, portanto, sugere trocar a definição de autonomia por “emancipação”. “Autonomia está ligada à experiência. Já emancipação, traz consigo o sentido da própria experiência somada à intrumentalização.

 

A próxima a conversar com os aprendizes foi a artista plástica Lucia Koch — cuja obra serve como material poético de trabalho, junto com a do cineasta Peter Greenaway, para os estudos deste Módulo —, que proferiu uma palestra focada em sua própria trajetória artística, comentando sobre as singularidades de alguns de seus trabalhos. No encerramento, ela agradece pelo convite e lança: “agora vamos ver os experimentos de vocês…”, dando início às aberturas de salas dos núcleos.

 

 

Núcleo 1

“Tire os sapatos”. Ouvia-se essa recomendação ao adentrar a sala do núcleo 1. Isso para poder sentir, na própria pele, a água que permeava a cena. 

 

Experimento do núcleo 1 (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

 

O grupo, que tem como uma de suas principais propostas criar um diálogo entre o trabalho de Lucia Koch e a filosofia do Zen Budismo, pretendia mexer com o sensorial do espectador. Assim, massagens com bexigas d’água, sons de água caindo de um copo para outro e uma música suave de fundo deixavam o público à vontade, enquanto os atores se entrelaçavam em meio a tiras brancas de plástico no centro do espaço. Também foi explorada a metáfora de transformação a partir do casulo da borboleta. 

 

Luciano Gentile, artista residente de Atuação, era o responsável por orientar o grupo. Sobre a preparação, ele comenta: “Eles tiveram uma experiência de elaborar um movimento no qual os cursos propositores (Cenografia e Figurino, Iluminação, Sonoplastia e Técnicas de Palco) montavam uma instalação e os outros cursos interagiam de alguma maneira. Depois, estes outros cursos vinham com uma nova proposta e voltavam com um novo ambiente, então, prevaleceu esse jogo de provocações. Estamos continuando esse experimento de troca e movimento do próprio ambiente proposto, portanto, eles mesmos foram surpreendidos”.

 

Andrea Fu, aprendiz de Sonoplastia do núcleo, ressalta as características de interação com o público que mais lhe agradaram. “Convidamos as pessoas presentes para também fazer parte desta transformação, e então pedimos a elas que ajudassem no ambiente, com a sonoplastia, iluminação e com os próprios atores e cenário.”

 

 

Núcleo 2

Uma espécie de caixa, isolada com plástico e iluminada com lâmpadas de néon azuis e roxas. Dentro dela, uma televisão ligada e atores interagindo entre si. Foi assim que o núcleo 2 abriu seus trabalhos. 

 

Experimento do Núcleo 2 (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

 

Além desses elementos, somados ao som de um DJ fazendo loops ao fundo, quem entrasse na sala 38 podia teclar em uma máquina de escrever, desenhar em folhas de papel, ou deixar sua mensagem registrada no revestimento plástico que cercava a caixa. E tudo isso sendo filmado ininterruptamente por um dos integrantes do grupo. 

 

O eixo do núcleo 2 é a investigação do “corpo sem desejo”. “Como seria esse corpo? Eu realmente preciso atingir o desejo total para depois ficar sem nenhum desejo?”, questiona Natalia Baviera, aprendiz de Atuação. “É isso que nós trabalhamos nestes últimos dias. Mas é importante deixar claro que ainda não sintetizamos nada, não foi uma apresentação e este não é o produto final”, completa.

 

Matteo Bonfitto, que ao lado de Jucca Rodrigues orientou o grupo, ressalta o caráter experimental dos trabalhos. “O que a gente está tentando é estimular outros modos, outras lógicas criativas, que poderiam ser chamadas de ‘lógica da prática’. Assim, a questão é: como abrir espaço para se colocar enquanto artista nessa lógica? Esse espaço que está se criando é importante justamente para percebermos o que emerge e as dificuldades que são encontradas, para que mais tarde possamos transformar esse modo de fazer e de criar.”

 

 

 

Veja mais:

 

O Avesso e o Ritual

Êxtase e Incompatibilidade 

Memórias e Desconforto

 

 

 

Texto: Felipe Del