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Encontro com Yedda Chaves

Publicado em: 08/03/2012 |

Inspirar! Empurrar o chão! Expandir! Trabalhar com o desequilíbrio! Saltar! Imprimir-se acusticamente! Assim começavam os encontros com a Yedda, pronta ao trabalho desde a noite do dia anterior ao encontro, “pois lá é que começa nosso encontro!” dizia. 

 

“Inspira!” Se aprendi algo com ela? Muito mais que os Meyerholds que nos visitavam em suas aulas. Modulação de energia, abandonar o que acabou de criar, reteatralizações, etudes e emoção da voz e do corpo… não sei mais o que é dela, do Meyerhold ou meu! Os encontros eram absolutamente preenchidos por vivências tão intensas que eram capazes de permitir essa apropriação.

 

“Empurra o chão!” “De que adianta tanto treino se no cotidiano as pessoas desfazem tudo o que acabaram de pesquisar”. Ela era 24h por dia atriz, mestra e pesquisadora. Me ensinou que se não dermos impulso não chegaremos a lugar algum, mas, principalmente, que isso depende da gente e do quanto estamos dispostos aquilo. Obviamente, esta disposição reverbera em nossas ações nesta busca. 

 

“Expande!” “Arruma a postura!” Tão intensa, que se entregava a cada experiência de forma mágica! Eu gostaria que todos pudessem ter visto a Yedda cantando “Boi da Cara Preta”. Eu nunca vi alguém tão entregue ao que faz. E que medo daquele boi! Ninguém dormia, não só porque o nível de exigência nos encontros era grande, mas porque ela tinha uma presença que exigia comprometimento e cobrava qualquer deslize. Apontava com precisão cirúrgica em suas observações. E é tão bom que tenhamos gente assim em nosso caminho, porque a mim fez expandir. Minha visão e meu fazer pedagógico e artístico não serão os mesmos após esse grande encontro.

 

“Permita o desequilíbrio!” “Não ignore as coisas não previstas que acontecem durante a vivência!” O que dizer disso? São dois princípios da vida, não? “O desequilíbrio leva ao deslocamento e este ao caminhar” Com certeza sua partida me desequilibrou… A gente se acomoda, estagna e acostuma até com as coisas que não gostaria de ter na vida. Daqui a pouco se acostuma a não viver! Por isso é preciso caminhar e nada melhor que o desequilíbrio para nos dar novas perspectivas! E é tão importante saber trabalhar com o imprevisto como sendo parte do nosso movimento, integrando-o e aproveitando-o. Não que seja fácil, mas estar aberto a esta possibilidade já nos coloca num outro nível de compreensão da vida.

 

“Olhe para um ponto e salte sobre ele!” Sim é importante dar saltos, mas precisamos saber para onde ir, ou pelo menos para onde queremos ir. E isto não significa rigidez. Podemos nos jogar em nossas experiências e viver de verdade as coisas, de olhos abertos, com maturidade, leveza e intensidade! 

 

“Imprima sua voz! Busque a voz do corpo e o corpo da voz!” Ser quem realmente somos é um desafio pra vida toda, mas algumas pessoas conseguem. A Yedda era realmente aquilo que podíamos ver nela. Toda intensidade e delicadeza, toda competência e sabedoria, toda exigência e carinho. Esta mulher incrível com quem tive a honra de conviver nos últimos anos de sua vida, de quem fui aluno, com quem dei aulas e a quem pude oferecer minha amizade é muito mais do que os livros ou registros do teatro poderão dizer. Atriz incrível, professora dedicada e ser humano exemplar. Isso não mostra nada dela… Não sei se nos deixa cedo ou é nosso egoísmo que não queria que ela fosse. O que sei é que em tão pouco tempo ela permitiu que eu realizasse vários de meus maiores sonhos e enquanto eu os realizava ela me agradecia! Não há rastro melhor para se deixar na vida que o amor ao que se faz e a gratidão ao outro e isto, Yedda querida, segue comigo e pra todos a quem eu puder contaminar.

 

Obrigado!

 

 

 

Carlos Eduardo Witter é ator e professor de teatro. Foi orientando de Yedda Chaves e, juntos, ministraram aulas no CAC/ECA/USP, na disciplina Poéticas da Voz e do Corpo, em 2010 e 2011.

 

Veja outras publicações da homenagem à Yedda Chaves:

 

Yedda Chaves: O Legado de uma Mulher

 

Yedda – Artífice da Cena

 

Galeria de fotos de Yedda Chaves