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Fernanda D’Umbra por Nelson Peres

Publicado em: 28/03/2012 |

Na primeira vez em que vi a Fernanda em cena, não tive a menor dúvida sobre o privilégio de ser contemporâneo de uma das melhores atrizes do mundo. É isso mesmo, sem exagero nenhum, uma das melhores atrizes do mundo, com direito a toda loucura e disciplina possíveis em um ator. Uma mistura muito rara, quase impossível, de se encontrar. A loucura e a disciplina de mãos dadas.

 

Em 2002, tínhamos uma cena dificílima pela frente. O conto “Nunca Mais”, do espetáculo “Ovelhas que Voam se Perdem no Céu”, de Daniel Pelizzari, adaptado e dirigido pelo Mário Bortolotto. Batemos o texto enquanto esperávamos pelo Mário. Ensaiamos menos de meia hora sob a sua brilhante direção. A cena ficou incrivelmente linda. Nunca mais mudamos uma vírgula da cena desse conto. 

 

Ali, descobri que jamais iria deixar de admirar essa atriz. Nunca mais. A cena nasceu e amadureceu em menos de meia hora. Ficou plenamente pronta. Uma das cenas mais lindas e delicadas que tive a honra de participar. A gente mal se conhecia fora dali, mas, em cena, éramos amigos de longuíssima data, com uma intimidade assustadora. Na mesma semana, fizemos a mesma coisa com outra cena de outra peça, “Postcards de Atacama”, também de Bortolotto.

 

A partir daí, na maioria das melhores cenas que tive o privilégio de trabalhar, por um acaso oportuno e extramente feliz, essa mulher tava ali dividindo comigo o enorme risco de estar em cena. Como um anjo da guarda. Sempre pronta pra te dar cobertura, dividindo com você uma taça da porção mágica do seu incrível carisma; que sempre te faz se agigantar em cena, te protege e compartilha da alegria do teatro, com uma sensibilidade e inteligência absurdas.

 

Trabalhar com uma atriz desse naipe é uma experiência sobrenatural. O que acontece ali é indecifrável. Poderia até dizer, com toda a minha experiência, que não é humano. Mas é sim. Ela é humana, sim senhor. Ela contracena no sentido mais pleno e poético que essa palavra pode ter. Ela te escuta, te olha no fundo dos seus olhos, acolhe o seu olhar, decodifica o seu gesto, te propõe, te ataca, te acata, respira junto, saca o turbilhão que está dentro de você, decifra o turbilhão que está dentro da sua personagem, do dramaturgo, da plateia… É praticamente impossível errar a mão quando se tem uma atriz como essa ao seu lado no palco.

 

Os anos foram passando. Continuamos a trabalhar juntos. Mais uma porção de cenas juntos. Mais um monte de cenas plenas ao lado dessa mulher. Isso não tem fim. Assim eu espero.

 

Hoje, ela é minha amiga, minha parceira, minha irmã. Hoje, a minha querida Fernandinha faz parte da minha família. Ela me telefona de madrugada, quando precisa de um amigo engenheiro; me conta sobre a sua vida, tomando um pingado numa padaria perto do ensaio; me pede carona pra viajar. Visita a gente no quarto do hotel, só pra conversar e dar gargalhadas deliciosas das coisas que estão acontecendo. Apresenta-me uma dose de Salinas com um sorriso maravilhoso estampado no rosto e, ainda, me pede pra pagar um café quando está sem grana. Essas coisas que só são possíveis entre pessoas que se amam e são verdadeiros cúmplices no amor que sentem pelo teatro.

 

Sabe aquele pequeno monólogo do arquiteto em “O Arquiteto e o Imperador da Assíria”, do Fernando Arrabal, sobre como ele imagina o que é felicidade? Para o arquiteto, felicidade é algo que nos foge totalmente do real e do possível. Uma série de imagens lindas e delicadas, acontecendo quase que simultaneamente. Não é humano. E é exatamente, assim, desse jeito indecifrável, quase não humano, que eu me sinto quando estou em cena ao lado desse monstro do teatro mundial.

 

 

Veja os verbetes de Nelson Peres e Fernanda D’Umbra na Teatropédia.

 

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