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Gerald Thomas por Ruy Filho

Publicado em: 30/03/2012 |

Era apenas um homem de teatro. Talvez, fosse simples colocar, para mim mesmo, as coisas dessa maneira, quando entrei numa sala de ensaio sua pela primeira vez. Era, apenas, alguém a quem admirava e, confessadamente, pouco entendia. E, talvez, fosse uma simplificação necessária dar-lhe tais atributos, ainda que o contato fosse sutil, tanto quanto se espera dos momentos primeiros com os ídolos. Mas Gerald Thomas é sempre surpreendente. E não foi nada disso o que ocorreu. 

 

A simplicidade planejada do encontro forjado foi substituída por um vazio absoluto, enquanto a expiação desmistificava um ídolo para dar-lhe feições de realidade. Naquela sala de ensaio, naquele 1999, todas as certezas se esvaíram como um vapor de fumaça. E, por ser ele sempre surpreendente, nada disso se manteve nos dias seguintes. E nada do que substituíra permaneceu nos dias após esses. Gerald Thomas é assim mesmo. 

 

É preciso conhecê-lo para se apaixonar por suas inquietações. É preciso enfrentá-lo, não como sujeito, mas como artista, desses que tornam o desejo pelo fazer artístico quase que uma corrupção moral, porque é violenta a maneira como expõe nossas fraquezas, nossas ignorâncias, nossos limites. É preciso estar mais próximo do desespero, é preciso estar absolutamente entregue ao desejo pelo desesperar-se, é preciso tornar-se a própria essência do desejar o palco, as luzes, as plateias. A presença de Gerald exige do artista o respeito pelo querer ser artista, e conduz a arte de quem assim se quer ao infinitivo de uma deliciosa dor e entrega pelo fazer.

 

Não eram sobre teatro ou teatros nossas conversas nos camarins. Falávamos sobre a vida, sobre os artistas, as artes plásticas e músicas. E falávamos sobre as épocas, os sentidos, as histórias, sobre o homem. E falávamos sobre política. E nos incluíamos na política das histórias. E nos tornávamos a época de nossas conversas. Sentados distraídos ou jogados madrugadas adentro, enquanto o palco se preenchia de luz, escutar e dizer eram gestos de absoluta profanação das certezas. É impossível dormir após conversar com Gerald. É impossível permanecer ausente, depois de ouvi-lo. 

 

Na insistência das palavras, nas continuações dos trechos dos espetáculos ditados nos ensaios e, então, digitados de modo solitário durante as madrugadas; nas ligações por Skype e emails sobrepostos com revisões, com visões, com o outro daquilo mesmo, os discursos de seus espetáculos expandem sua necessidade pelo grito, por meio do sublinhar observações poéticas sobre qualquer um, sobre qualquer tudo. Pois somos todos nós todas as personagens de Gerald. Somos a caricatura de uma existência desfigurada, o não revelado, o sujo, o imperdoável, mas, sobretudo, o mais concreto aspecto de uma ilusória sociedade perfeita. Só que Gerald não é simplesmente assim tão simples. E não há perfeições no que revela de nós mesmos. E permanecemos feitos abstrações de vidas, de ausências vivas, de ausências ditas em felicidades fingidas, em mundos fingidos, tingidos em respostas combinadas.

 

Gerald Thomas respira e expira a paixão dos homens mais enlouquecidos, apaixonados. Faz da exposição crua o prazer amante do encontro consigo mesmo. E nos convida ao espelho por doses sublimes de imagens. Não é fácil assistir aos seus espetáculos, porque não é enfrentar a si mesmo de forma tão elaboradamente exposta e bela. Não é fácil dividir suas coxias, porque não é o apreciar, de forma tão evidente, sua genialidade imprópria aos comuns. Gerald, se pode ser algo ou alguém, é isso. Meio pai e filho, irmão e incesto, meio desejo e encontro e um tanto de delírio e perdição. Gerald é, de alguma maneira, a certeza absoluta do que se espera de um artista único, desde que entendamos o óbvio de ser o artista a própria arte e a singularidade, a capacidade de dizer o indizível equidistantemente óbvio. 

 

Das plateias aos camarins, deste às coxias e destas às cabines técnicas, Gerald é a excelência de uma geração que não se fez crescer. Sobrou-nos ele, apenas. Sobrou-nos sua dramaturgia do instante. Sobraram-nos seus espetáculos e suas percepções. E, hoje, depois desses mais de dez anos, na observação constante dos seus olhos protegidos pela moldura dos óculos e cabelos longos, aprendi a compreendê-lo como realmente deve ser. Gerald é verdadeiramente apenas um homem de teatro. Isto é claro. O que eu não percebia, até conhecê-lo e acompanhá-lo, é o quanto raramente eu havia compreendido o que, de fato, vinha a ser o teatro.

 

 

 

Ruy Filho é diretor e dramaturgo.

 

Veja o verbete de Gerald Thomas na Teatropédia.

 

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