Era uma tarde dessas tediosas quando Maria me interfonou. Ainda não estava pronta para sair e a convidei para subir, mas ela preferiu ficar me esperando lá embaixo com sua filha. Julia, hoje, uma adolescente linda e inteligente, devia ter uns cinco ou seis anos naquela época.
Quando saí do prédio, encontrei as duas agachadas num canteirinho de plantas que dava para rua, cavando a terra com as mãos, catando minhocas e tatus-bola. Torci o nariz e perguntei o que fariam com aqueles bichos gosmentos. Nada, nada mesmo. Estavam, apenas, explorando o que havia naquele espaço. Mas um espaço tão pequeno? Riram de mim, os devolveram para a terra e partimos.
Nessa época, Maria e eu estávamos traduzindo o texto “Essa Nossa Juventude”, do dramaturgo americano Kenneth Lonergan, peça que também produzimos juntas. Passamos meses trancadas trabalhando no texto. A qualquer trecho pronto e impresso, Maria sempre se deitava no chão e, dali, lia e relia em voz alta, interpretando os três personagens ao mesmo tempo. Pulava de um para o outro sem nenhum esforço, é claro.
Às vezes, ela empacava em uma frase que não soava direito na boca do ator. Repetia e repetia com inúmeras tentativas, até achar o ponto de alívio. A área diminuta do meu escritório fazia sua voz ressoar ainda mais potente. Com isso, fui aprendendo a sentir o texto como ela sentia e acabei desenvolvendo sua apreciação pela sonoridade de cada frase.
O final da tradução coincidiu com a mudança de Maria para uma casa com um jardim enorme, pelo menos do ponto-de-vista de Gororoba, a tartaruga que vivia atrasando nossas reuniões quando sumia. Nossa base de produção era também habitada por coelhos, o cachorro Banzé, o gato Tamborim e algumas calopsitas. Maria mimava uma delas em específico, aquela que voava até seu ombro e lhe dava bicotas na orelha.
Ao longo dos meses que nos encontrávamos ali, nunca houve fronteira entre o jardim com seus bichos e o escritório com nossos papéis. Apesar de uma parede, também não havia nada que dividisse o escritório de seu ateliê, onde ela esculpia em argila, pintava com tinta – nanquim ou carvão, se precisasse –, e, ainda, manuseava pedaços de madeira ou ferro, que ela catava com a mesma espontaneidade e urgência que procurava por Gororoba.
Maria nasceu para transformar coisas corriqueiras em algo bonito, que mexe com a gente; seja no palco, no ateliê ou na vida. Seu baita talento como atriz todos conhecem. Aquele carisma no palco, exímio controle corporal e sua voz quente são frutos, sim, de sua natureza, combinada a muita dedicação e estudo. Maria também tem alma, cabeça e a inquietação de artista plástica, porque ela mesma é feita de forma, textura e cores diferentes. Sua palheta é abrangente.
Sempre soube que não há espaço que seja pequeno demais ou grande demais para Maria, seja como artista plástica ou como atriz. Com o convívio, também entendi, aos poucos, sua necessidade de isolamento. Uma vez que não há divisas entre ela mesma e o mundo, Maria precisa passar horas em seu ateliê, criando, criando e criando, ou transformando sua pele sem fronteiras em armadura de metal.
Para alguns, Luisa, para outros, Maria. Maria Luisa Mendonça só não gosta de ser chamada de Malu. Ela também cruza os braços, bem brava, quando enrolo alguma história para esconder que estou encalacrada em alguma roubada amorosa (sempre). Apesar de ser bonita que só, também faz cara feia quando eu negocio cachês abaixo do que ela considera meu merecimento.
Depois de sua mudança de volta para o Rio de Janeiro, descobri que também não há distâncias para Maria. Nos meus perrengues, ela pega um avião e aparece em São Paulo para desenterrar caraminholas da minha cabeça, com a mesma facilidade que pula em um canteiro para catar minhocas. E só vai embora quando sente que minha pele, como a dela, ganhou, mesmo que temporariamente, a firmeza de uma couraça.
É com essa generosidade e força que ela faz teatro.
Veja o verbete de Christiane Riera e Maria Luísa Mendonça na Teatropédia.
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