Cássio Pires é dramaturgo e professor de teatro
Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Comecei fazendo teatro em ambiente escolar. A escola em que fiz o ensino médio tinha um grupo de teatro bastante estruturado. Minha formação começou por ali.
Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Sinceramente, não me lembro.
Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
“Ensaio sobre o Latão”, da Cia. do Latão, me fez entender o que é um processo criado em um grupo; “O Livro de Jó”, do Teatro da Vertigem, me fez pensar sobre a questão do espanto no teatro.
Um espetáculo que mudou a sua vida.
“As Bacantes”, do Oficina, “Vereda da Salvação”, do CPT, “A Bilha Quebrada”, do Razões Inversas, e “Vestido de Noiva”, do Tapa. Foram peças que vi, entre 1994 e 1995, e que me fizeram sair das apresentações pensando seriamente em fazer teatro.
Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Não sei se padrinho é uma palavra que dê a medida exata da relação que tenho com pessoas com as quais aprendi muito. Mas Elcio Nogueira, meu primeiro professor de teatro, Silvana Garcia, minha orientadora em meu mestrado, Kleber Montanheiro e Heitor Goldflus foram pessoas que me ensinaram coisas muito importantes nos meus primeiros anos em São Paulo, seja por que estudei ou porque trabalhei com eles.
Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Não. Ninguém vai me ofender se deixar a plateia antes de uma peça minha acabar, mas gosto de ficar até o final, mesmo quando não estou me divertindo. Fui lá para isso, para ter uma experiência, viver um percurso. Gosto de ir até o final dele, o momento das palmas, as pessoas deixando a sala, o caminho de volta para casa, essas coisas.
Teatro ou cinema? Por quê?
Cinema, teatro, literatura, música, artes plásticas.. Gosto de tudo e tudo pode me chatear.
Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
Eu gostaria de ter participado da primeira apresentação do “Hamlet”, em Londres, no comecinho do século XVII, na condição de espectador.
Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Vários. Às vezes, por dever de ofício. Às vezes, por prazer. Para observar detalhes, para observar a construção da encenação depois de ter apreciado a fábula.
Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
Não tenho autores prediletos. Me apego mais ou menos às obras de dramaturgos por algum tempo. Nesses últimos tempos, tenho pensado bastante sobre o Tchecov.
Qual companhia brasileira você mais admira?
Vou aqui por um caminho semelhante. Não tenho predileção especial por uma companhia. Mas sempre me admira nesse conjunto, quando uma companhia sabe porque seguir junta ou sabe porque parar. Essas são atitudes realmente admiráveis.
Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?
Todos, não. Trabalho muito durante as noites, dando aulas, ensaiando ou apresentando. Há muito tempo tenho pouco tempo para ver teatro.
Qual gênero teatral você mais aprecia?
Tudo que supera os limites de um gênero ou de uma escola é sempre o mais interessante. De qualquer forma, me interesso muito pelos gêneros. Há dois anos, formei um grupo com três atrizes chamado “Filme Bê”. E o que fazemos nesse grupo é exatamente nos relacionarmos com gêneros. Não particularmente gêneros teatrais, mas também cinematográficos e literários. Lemos contos fantásticos e de horror, melodramas, filmes de suspense e cinema noir. Não porque queremos fazer esses gêneros no teatro, mas sim porque eles são todos gêneros criados pela burguesia depois que ela se tornou classe dominante para falar sobre ela mesma. Nossa intenção ao tomar esses gêneros é ultrapassar, atravessar esses gêneros, tomá-los como motes para chegarmos em outros lugares. Criticá-los e louvá-los por dentro. Investigar a expressão formal do pensamento hegemônico e revelar dentro de suas próprias estruturas as suas contradições.
Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Gosto de me sentar do lado esquerdo da plateia, de onde se estabelece uma relação de leitura da cena semelhante a leitura de um texto (da esquerda para a direita). Leio melhor o espetáculo quando estou à esquerda.
O pior lugar que já me sentei foi no palco, quando atuei, ainda em tempos da escola. Ali, diante dos refletores, definitivamente não é o meu lugar.
Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
Eu já fiz teatro em lugares ruins e sai desses lugares com lembranças boas e já fiz teatro em ótimos lugares e sai dali com lembranças péssimas.
Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Existem peças ruins, encenadores equivocados, atores incapazes, assim como cenógrafos, iluminadores, figurinistas… Mas no meio disso tudo às vezes só o que existe é meu olhar cansado e repleto de juízos e verdades incontestáveis… Acho que nenhum artista pode se satisfazer com sua mediocridade, mas, no limite, o teatro é uma aventura.
Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Não consigo idealizar as coisas desta forma. O espetáculo dos meus sonhos é sempre o que eu estou fazendo no momento.
Cite um cenário surpreendente.
Já vi ótimos cenários e adoro cenografia, mas, se o que você me pergunta tem a ver com “surpreender”, te digo que nada me surpreende mais do que aquilo que nossa imaginação consegue colocar em um palco vazio. Nesse sentido, um ótimo ator é sempre o melhor dos cenógrafos.
Cite uma iluminação surpreendente.
As luzes do Bob Wilson são sempre muito bonitas, não?
Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Sou professor e lido com jovens artistas em formação. Todos os semestres diversos deles me surpreendem.
O que não é teatro?
Eu não sei o que é e o que não é teatro. Eu sei que existe um teatro que me interessa e um teatro que não me interessa. Quando o teatro se dobra à condição de mera mercadoria, isso me chateia. Quando o teatro se limita a defender teses (mesmo as teses com as quais concordo), isso me chateia. Quando o teatro se abre a enfrentar verdadeiramente nossas contradições e sua própria linguagem, ai ele me diz respeito.
A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Do ponto de vista moral, sem dúvida. Do ponto de vista da linguagem, também. Do ponto de vista do rigor, de forma alguma. A quem faz teatro não cabe nada mais a não ser a entrega absoluta.
Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Eu penso que quanto mais as relações sociais são mediadas por tecnologia, mais isso pode libertar o teatro de certos papéis sociais que ele teve de cumprir no passado. Ele não precisa mais se limitar a atos de denuncismo, de educação das massas, como também não precisa mais se limitar a meramente entreter. Ele pode ser o campo em que os homens se encontram para cantarem suas contradições, projetarem seu futuro, se arriscarem coletivamente no campo da poesia, da indagação plena.
Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Os autores que gosto não precisariam estar em minha estante, ainda que estejam. Eles já estão comigo, já constituem partes do que sou. Na minha estante não podem faltar autores com os quais não me ligo tanto.
Qual o papel da sua vida?
Pra mim, o papel de um artista de nosso tempo é colocar-se permanentemente em xeque para colocar os que o cercam em xeque também.
Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Para Brecht: fale um pouco mais sobre o interesse que declarou ter pelo boxe, pelo cabaré e pela literatura policial.
O teatro está vivo?
Ele sempre está vivo. O que morre, o que é histórico, são as formas de fazê-lo.