EN | ES

Papo de Teatro com Eloisa Vilela

Publicado em: 27/02/2012 |

Eloisa Vilela Fusco é atriz

 

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?

Quando  era adolescente e fazia ballet, já tinha um pouco de curiosidade e vontade de fazer teatro, mas achava a ideia de falar no palco amedrontadora, parecia que, para mim, só dançar seria possível no palco, pois tinha vergonha, era tímida. Depois, fui estudar cinema, e tinha mais vontade de fazer o trabalho dos atores do que o que eu estava fazendo, e imaginava como eu faria se estivesse no lugar deles, então comecei a fazer um curta e outro, até que fui fazer um workshop com o Teatro da Vertigem; comecei a descobrir o teatro e decidi estudar atuação, e aos poucos fui me apaixonando, acho uma das expressões artísticas mais poderosas que existem.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

Não lembro exatamente da primeira peça a que assisti, mas lembro de algumas das primeiras coisas que me marcaram. A primeira de todas talvez tenha sido “Cacilda”, do Teatro Oficina, eu era muito nova, mas ali tive a impressão de que o teatro era algo muito vibrante! Depois, assisti a algumas obras de dança-teatro que também foram impressionantes; uma obra da Pina Bausch, onde mulheres com vestidos coloridos e cabelos armados e esvoaçantes entravam por todos os lados do teatro e iam se aproximando do palco lentamente, com um requebrado marcado que saltava aos olhos; me lembro, ainda, de um trabalho do Wim Vandekeybus, que era muito forte cenicamente e tinha uma iluminação expressiva e impressionante de tão bela, cheia de recortes e sombras. Mais tarde, quando já estava estudando cinema, fui assistir a um “Prêt-à-Porter”, do CPT, e assisti a uma cena de Juliana Galdino, fazendo uma personagem muda, presa a uma cadeira de rodas e torturada psicologicamente por uma visitante cruel interpretada pela Arieta Corrêa, ela não falava nada, apenas vertia lágrimas que escorriam por um rosto contorcido pela dor, era impressionante. Não me esqueço. 

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

“Arena Conta Danton”, da Cia. Livre.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.

Difícil citar só um, pois muitas peças com certeza influenciaram a forma como vejo o mundo e como me conduzo pela vida, mas, pra citar um, de onde saí muito diferente do que entrei: “A Ópera dos Vivos”, da Cia. do Latão, que esteve em cartaz em 2011 na cidade.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?

Padrinho ainda não. Acho que algumas pessoas me viram em algumas ocasiões e me chamaram para fazer coisas interessantes. Mas, aceito, caso alguém queira me adotar.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?

Sim, porque era constrangedoramente ruim e eu não estava num bom dia para aguentar até o fim.

 

Teatro ou cinema? Por quê?

A meu ver são coisas muito diferentes, mas que se alimentam uma da outra, atualmente, assim como vida e sonho, canção e poesia. Não dá pra escolher um em detrimento do outro, artisticamente falando; um ator pode escolher o que gosta mais de fazer por suas razões e gostos  pessoais. Acho que o teatro é a casa do ator por excelência, por mais que exista a presença de um diretor que defina cada gesto, no final, quem está no palco é o ator, mesmo que seja uma marionete. Enquanto o cinema é a casa da equipe regida por um diretor. Claro que o ator deve ser maravilhoso ou pelo menos funcionar muito bem, caso contrário tudo estará perdido, mas ele é uma das milhares de partes que compõe um mosaico refinado. 

O teatro, assim como a música (ao vivo), surge e desenvolve-se, bem ou mal, no tempo, é efêmero, não se volta atrás, não se concerta nada a não ser seguindo em frente, não se retém, o movimento é sempre adiante e no final esvaneceu-se, o que fica é a experiência de cada um, e isso é uma coisa muito poderosa, tanto para quem faz, como para quem assiste.

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?

“O Idiota”, da Cia. Mundana, porque adoro Dostoievski, a cultura e a literatura russa. Sou um pouco uma romântica fora de meu tempo, e porque acho que poderia fazer alguns daqueles personagens. Também porque achei a peça ótima, e gosto muito do trabalho da Cibele Forjaz e de todo aquele núcleo. Todos, sem exceções, estavam muito bem.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?

Para falar a verdade isto é uma coisa que não faço. Algumas vezes saio dizendo que vou voltar e nunca volto, mas tem um espetáculo que assisti duas vezes, pois fiquei muito encantada com o rigor, a precisão e a beleza daquela peça, parecia quase um balé: “Camaradagem”, direção de Eduardo Tolentino de Araújo, do Grupo Tapa. 

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.

Acho, sem grandes originalidades neste ponto: brasileiro, Nelson Rodrigues, porque racionalmente poderia lançar sobre ele injúrias referentes a coisas que me incomodam em sua obra, mas é só ler ou assistir a um Nelson Rodrigues bem feito, que você vê a besta que mora dentro de você saltar para fora, gritar, chorar e babar, e destruir toda a máscara hipócrita que você se esforça para construir e mediar suas relações com o outro e com a sociedade.

Estrangeiro, Anton Tchecov, por uma identificação profunda e uma paixão infinita; isso é o principal. Mas além disso (provavelmente não vou escapar da redundância aqui) a compreensão que ele tem do ser humano em suas mais variadas versões, momentos e situações é espantosa, e coloca este autor perto de alguma coisa que eu entenderia como Deus,  ele expõe tudo com crueza mas com compaixão, como se ele fosse capaz de compreender os motivos de cada ser humano, do considerado nobre ao considerado torpe, e também nos coloca suas ambiguidades, como quem diz ‘nada é uma coisa só’.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?

Essa é uma pergunta difícil, pois talvez ainda não tenha uma, mas gostaria de citar algumas cujo trabalho eu admiro e venho acompanhando: Cia. Livre, Cia. do Latão, Club Noir e Cia. Balagan.

 

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?

Venho acompanhando o destas companhias, por exemplo, mas acho que não posso dizer que não perco nada.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?

Difícil dizer… Gosto de peça bem feita. Posso apreciar qualquer gênero se a peça for encenada por um diretor e elenco que buscam compreender e respeitar tanto o texto quanto o público, assim qualquer gênero pode ficar muito bom e exercer a sua função.

 

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?

Gosto de sentar normalmente no centro da plateia e mais para a metade da frente, assim tenho uma boa perspectiva e não perco os atores, acho que ver os atores totalmente de cima ou na lateral extrema não é um bom negócio. Já sentei nestes lugares e não gostei.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou? 

Acho o Viga Espaço Cênico um lugar agradável de se apresentar e a equipe é muito bacana também. Atualmente, estou em cartaz no Club Noir e acho um lugar fantástico, desde o café, até o teatro em si, acho um espaço muito bem pensado e bem aproveitado, além de ser gostoso de estar lá e ter um público cativo. Nunca me apresentei em algum lugar tão terrível que seja digno de nota por isso.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou? 

Acho que existem peças ruins, sim. 

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

Seria um texto sobre as escolhas que fazemos na vida, se passaria entre São Paulo e Bahia e seria somente com grandes atores, generosos, tranquilos e lindos.

 

Cite um cenário surpreendente.                        

“Pterodátilos”, cenário de Daniela Thomas, direção de Felipe Hirsch.

 

Cite uma iluminação surpreendente.

As iluminações do Club Noir, em geral.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.

Não costumo nutrir expectativas, espero que as pessoas se revelem.

 

O que não é teatro?

Algo que não seja feito para pelo menos uma pessoa que esteja lá para assistir.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

Para mim esta ideia não serve para nada se redundar em gratuidade.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

O que se quiser que seja; desde a salvação de um mundo demasiado virtual, até campo para novas experiências. A primeira opção me interessa mais.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?

Atualmente textos de dramaturgia contemporânea, lado a lado com os clássicos.

 

Qual o papel da sua vida?

Até hoje foi a Irina da peça “As Três Irmãs”, de Anton Tchecov, mas ultimamente só venho recebendo presentes. E acho que houve e haverá outros papéis da minha vida. Cada papel é o papel da nossa vida, é o papel da nossa vida naquele momento. Eu penso assim…

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

Para Shakespeare: Seria possível um mundo onde todos só falassem a verdade?

 

O teatro está vivo?

Sim.