Marcio Mello é ator, diretor e preparador físico
Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Quando eu era muito jovem, acho que foi em um dia de chuva em São Paulo, eu era pré-adolescente e estava na porta de um teatro esperando a chuva passar quando a moça da bilheteria me convidou a entrar (acho que estavam mal de público) e assistir ao espetáculo.
Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Foi “Os Saltimbancos”. Uma surpresa, me lembro de tudo até hoje.
Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
Muitos espetáculos. Todos que eram bons, todos do Grupo DV8, The Chinese Physical Theatre Company, Theatre of Cumplicite, os da Denise Stoklos, “Comédia dos Erros”, com o The Globe Theatre, enfim, muitos.
Um espetáculo que mudou a sua vida.
Todos que gostei mudaram minha vida de alguma forma.
Você teve algum padrinho no teatro?
Não. Tive pessoas que me ajudaram, mas não no sentido de apadrinhar, mas sim no de acreditarem em mim e me apresentarem para alguém, etc.
Já saiu no meio de um espetáculo?
Nunca. Mas fiz um espetáculo com o Valter Portella, do CPT, em que um ator parou o espetáculo (“As Troianas”), lá no Sergio Cardoso, para reclamar do som que estava ruim… desastre. Uma experiência que não desejo a ninguém.
Teatro ou cinema?
Ambos. Sempre tive preconceito com câmera em geral; o teatro me parecia mais difícil, mais nobre, ter de lidar com o público, projeção, marcações, etc. Depois de fazer meu primeiro longa, descobri uma complexidade incrível no trabalho de câmera, nas nuances, no ter de fazer muito pouco.
Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado.
Centenas, mas vamos lá: “Da Gaivota”, com Fernanda Montenegro, por sua grande atuação; “Hamlet”, direção do Trevor Nun, em Londres, em que todo elenco era jovem e eu tinha acabado de me formar, então queria muito ter participado; o antigo “Escola de Maridos”, do Sesi, pela montagem, mas também pelo salário fixo e plano de saúde; “A Megera Domada”, no The Globe Theatre, em Londres, pois os atores estavam se divertindo muito em cena.
Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo?
Já. Eu trabalhei por algum tempo no Barbican Centre (o maior centro cultural da Europa em Londres) onde vi grandes espetáculos. Tudo aquilo que eu gostava muito, voltava a assistir uma, duas ou até mais vezes. Claro que sem pagar nada!
Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?
Um só???? Tá difícil. Vianninha, pela beleza dos seus textos, e Shakespeare, pela grandeza e riqueza de sua obra, mas gosto de outros também, como Martins Pena, Chico Buarque, Plínio Marcos, Tchecov, etc…
Qual companhia brasileira você mais admira?
Companhia de teatro não sei, estou de volta ao Brasil há pouco tempo e não vi muitos trabalhos de companhias, mas gosto muito do Grupo de Dança Corpo.
Existe um artista ou grupo de teatro o qual você acompanhe todos os trabalhos?
Todos não, mas tenho, sim, alguns preferidos.
Qual gênero teatral você mais aprecia?
Todos, quando bem feitos, mas eu tenho um pé no drama.
Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Como não enxergo bem, gosto de ficar lá na frente, talvez na terceira fileira no centro (gosto do melhor lugar da casa!). Detesto ir ao teatro e sentar na lateral, lá atrás, perto de gente que fala, come pipoca, dorme, fica olhando no celular, vai ao banheiro, sai correndo no final do espetáculo e respira muito alto! Mas quando eu era estudante e não tinha dinheiro para comprar um ingresso melhor, já sentei atrás da pilastra, no chão, fiquei de pé…
Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
O melhor em São Paulo foi o Sérgio Cardoso, pelo nome e tamanho, um teatrão mesmo. Em Londres, o Teatro da Central School of Speech and Drama é fenomenal. The White Cube, também em Londres, é um espaço alternativo bom. Agora, o pior espaço… não sei, esqueci.
Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Existe os dois.
Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Ah… Segredo de Estado…
Cite um cenário surpreendente.
“Miss Saigon”, que desce um helicóptero em cena.
Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Jude Law, em “O Talentoso Ripley”.
O que não é teatro?
Sei lá, não me importo com definições.
A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Sim, se for bom, por que não?
Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Público e plateia, sem celulares tocando.
Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
As peças curtas de Tchecov, que são muito boas.
Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Diretor: Simon McBurney. Autor, todos os que já citei. Ator: Ian McKellen, Al Pacino, Clint Eastwood, Kenneth Branagh, Daniel Day Lewis, Vanessa Redgrave, etc.
Qual o papel da sua vida?
Hamlet.
Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire:
Para Shakespeare: As suas peças são copiadas de outros autores europeus mesmo? Você existiu? E qual tradução é a melhor? Porque existe uma grande polêmica em torno da existência de Shakespeare. Muitos acadêmicos dizem que ele nunca existiu.
O teatro está vivo?
Eu acho que sim. Tem muita gente por aí tentando acertar e procurando uma conexão com o público, contando histórias lindas, e, com isso, automaticamente, estamos na direção certa do questionamento, da necessidade de expressão. E isso é viver.