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Papo de Teatro com Patricia Gasppar

Publicado em: 14/11/2011 |

Patrícia Gasppar é atriz

 

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?

Da vontade de me comunicar. Daí, naturalmente, foi acontecendo uma procura de caminhos possíveis para expressar o que acontecia dentro e fora de mim. Primeiro veio o desenho, desde sempre o canto, e logo a dança, que me levou aos palcos. O Teatro surgiu como a melhor resposta de expressão de tudo.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

Tinha 5 anos e meu pai me levou pra assistir a um infantil chamado  “O Alfacinha”. Foi traumático. Chorei direto. Mas prova da minha superação é que me tornei atriz e adoro alface!

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

“Trate-me Leão”, do Asdrúbal Trouxe o Trombone,  e “Folias Bíblicas”, do Pod Minoga.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.

“Caminho Para Meca”, onde contracenei com Cleyde Yáconis.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?

A primeira pessoa que me olhou como uma possível atriz foi Irene Ravache, durante um curso de interpretação que ela coordenava. Eu tinha 17 anos e logo em seguida ela me chamou para fazer uma peça que ela dirigiu “A Gema do Ovo da Ema”. Vinte anos depois, vim reencontrá-la, dessa vez contracenando com ela, em “A Reserva”.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?

Não lembro. Devo ter saído. Mas evito isso ao máximo por respeito a quem está no palco, ao trabalho que é levantar uma produção, efetivar uma montagem. Esse pensamento me guia. Agora, confesso que vontade de levantar e ir embora, muitas vezes, não me faltou. Teatro é uma experiência sensacional, mas também quando é ruim é um suplício. 

 

Teatro ou cinema? Por quê?

Cada um é cada um, né? O cinema pra mim é e sempre foi um deleite, é onde compro um ticket para a maravilhosa sensação de entrar no sonho, e aquelas imagens gigantes na sala escura me transportam com uma facilidade incrível. O Teatro é minha casa e o que me envolve e garante a minha entrega. É a alma. Se não há alma eu não quero ficar ali, mas quando sinto a sua presença é um conforto: sei que ali, no Teatro, tenho alimento, tenho luz, tenho raiz, enfim, tenho para onde ir, ser e estar. 

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?

Recentemente assisti a “Deus da Carnificina” e senti muita vontade de estar ali. Texto ótimo, direção excelente e os dois papéis femininos bárbaros. Me deu vontade de dizer o que estava sendo dito ali, daquela maneira.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?

Sim, vários, porque na primeira vez que assisto sou só um feixe de sensações e sentimentos. Ás vezes se me perguntam sobre a história e eu não sei nem contar. Vejo por outros canais mesmo. Então volto para então prestar atenção de outro modo. Aí observo, vejo com a razão. 

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.

Nelson Rodrigues sempre será uma referência, a tradução exata do avesso do avesso. E Shakespeare, a matriz absoluta de tudo que se refere ao sentimento humano.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?

Gosto muito da Companhia dos Atores, do Enrique Diaz. 

 

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?

Muitos: Cleyde Yáconis, Marco Nanini, Elias Andreato,  Parlapatões, Mariana Lima, Ilana Kaplan, Angela Dip, Marcelo Médici, Denise Fraga, Mira Haar, Henrique Stroeter, Nilton Bicudo, Petrônio Gontijo, Andréa Beltrão, Maria Alice Vergueiro, Grupo Tapa, Os Fofos, Newton Moreno, Fabio Herford, Clara Carvalho, Sergio Roveri, Mario Viana, Possi, Fabio Namatame, Alexandre Reinecke, Gilberto Gawronski, Bortolotto, Marcio Aurelio… São muitos; vou parar por aqui, mas tem muitos outros que admiro e sigo os passos, na medida do possível.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?

O que me emociona, me toca, me faz refletir. E isso pode ser em qualquer gênero.

 

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?

Acho bom no meio. Nem fundão nem gargarejo. O pior lugar? Tem teatros que pecam pelo desconforto seja em cadeiras ou arquibancadas “de quinta”; tem outros que por colunas, paredes, estratégicamente mal colocadas, e falta de ventilação; e aí você também se pergunta que mal fez a Deus pra viver aquilo. Bem, já passei por todas essas e perseverei. Como pode perceber vocação teatral não se vê só no palco não, mas na platéia também.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?

O Teatro é a arte de não se acostumar a nada, nem pelo bom nem pelo ruim. Então o que me pega é o respeito que eu encontro num lugar. Pode ser um espaço simples, pequeno, com poucos recursos, mas tem que ter um cuidado, o melhor que se pode fazer ali, dentro das condições reais. Trocando em miúdos: tem que ter amor no lugar, entende? 

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou? 

As duas coisas. 

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

Não tenho muito essa viagem. Nunca tive. Pra mim é importante que haja uma “boa coxia”, quer dizer, gente bacana quando o pano tá fechado, prazer e competência no trabalho em si.  E a impermanência que o Teatro oferece me apavora do ponto de vista financeiro, mas me seduz quanto à experiência única de cada processo. Desejo fazer sempre de cada espetáculo um sonho.

 

Cite um cenário surpreendente.

Adoro os da Daniela Thomas, sempre me surpreendo. 

 

Cite uma iluminação surpreendente.

Ah, não lembro agora, mas já vi lindas concepções do Wagner Freire, do Bonfanti, do Maneco Quinderé, etc.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.

Não vou escolher um, mas posso garantir que já me comovi imensamente com muitos que romperam, de alguma forma, com algo neles mesmos em cena e abriram um mar ali, na minha frente. E isso muitas vezes foi sutil, um pequeno momento, mas avassalador.

 

O que não é teatro?

O que não compartilha, o que não dialoga, o que não oferece, o que não vibra, o que não escuta, o que não ecoa. Mas isso é uma discussão…

 

A idéia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

Pra mim, não.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

Quanto mais humano, mais moderno. Sempre.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?

As de Shakespeare. Mas faltam, infelizmente.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.  

(diretor) Peter Brook / (autores) Flávio de Souza, Marta Góes, Emilio Boechat/ (ator) Elias Andreato / (atriz) Mariana Lima

 

Qual o papel da sua vida?

Muitos. Acho que eles me procuram. E estou para o que der e vier.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire. 

Nelson, o que você pensa sobre a Copa em 2014 aqui no Brasil?

 

O teatro está vivo?

Os homens estão, não estão? Uma coisa não vive sem a outra.