EN | ES

Paulo Autran por Célia Forte

Publicado em: 28/03/2012 |

Um Homem em Minha Vida, Pequeno Discurso Amoroso

 

 

Aí, a Erika Riedel liga e diz: faremos uma singela homenagem para algumas pessoas do teatro em nosso site, e algumas pessoas escreverão sobre essas outras pessoas.  Então, (tempo) você pode escrever umas linhas sobre Paulo Autran? 

 

Eu: O quê? Eu?, disse apavorada.  

 

Erika, plácida: Sim, você. 

 

Eu: Como assim? O que eu posso dizer sobre esse homem que fez com que eu amasse teatro como amo hoje? Existem tratados sobre esse homem. Ah, não vai dar! Só se…

 

Erika: Só se, o que?

 

Eu, sentindo que não deveria ter falado a frase anterior: só se eu descrever a emoção da primeira vez que o vi no palco em “Pato com Laranja”, na década de 1970. Lembro que eu havia acabado de completar 18 anos. Acho que foi minha primeira peça “adulta”, fora “Morte e Vida Severina”.

 

Erika: Isso, vai por aí. Escreva sobre seus momentos com ele.

 

Eu: Momentos? Erika, vivi 19 anos sorvendo esse homem, que na turnê de “Quadrante” nos fazia acordar muito cedo, Selma Morente e eu, para irmos ao zoológico da cidade. 

 

Eu: Paulo, já fomos ao zoológico da cidade anterior.

 

Ele: Pois é, mas quero ir ao dessa cidade também.

 

Eu: Mas eu não vou andar muito.

 

Ele: Vai sim. Precisa emagrecer… E comer menos…

 

Mesmo ofendida, eu ia. Xingando e tudo, mas ia. E hoje digo: ainda bem que fui.

 

De qualquer maneira, era mesmo impossível resistir a um pedido seu, quero dizer, dele (reflexiva). Acho mesmo que o Paulo foi bem mimado. Não, não só por mim. Por todos que compartilhavam seus dias de “folga”, seus minutos de descuido. 

 

“Selma, não vou conseguir escrever”, eu disse numa fragilidade sincera. “Vou querer parecer inteligente, falar sobre a importância dele no teatro. Discursar sobre suas peças. Dizer como ele foi absolutamente definitivo em minha vida profissional. Falar sobre sua cultura. De como adorava acompanhá-lo nas entrevistas para saber mais sobre hoje meu ofício, também”, ouso dizer. “Gritar aos quatro ventos que acompanhei alguns trechos da conversa entre ele e o Guzik para o livro ‘Um Homem no Palco’”. Acreditem, eu estava lá! (Descontrolada.) Eu estava lá! (Continuando.) “Relatar como o admirava por tudo que leu, fez. Sua influência em uma, duas, três, talvez quatro gerações que se inspiraram, se inspiram em suas composições.”   

 

Ah, não vai dar. Não vou conseguir… É muita coisa. Como simplificar toda essa história? Como não vou falar dos ensaios, dos jantares? Da parceria profissional. De como ele e a Karin nos faziam rir. De como levávamos a sério o jogo de tranca? 

 

Essa história está ficando longa. Não tem nada a ver… Sou prolixa por natureza, perco-me nos assuntos. Estou sem foco. Quer saber? Vou disfarçar, deixar o prazo passar e não vou entregar coisa alguma. 

 

(Tempo.)

 

Toque de celular. Olho na bina e leio o nome do meu tormento: Erika!

 

Não atendo. A Selma atende e diz: Oi, querida, a Célia está terminando o texto sobre o que Paulo Autran representou em sua vida no teatro e sobre como perdia muito no jogo. Aliás, ela era a que mais perdia…

 

Num ataque de fúria, gritei: “Mentira, Erika. Eu não perdia tanto assim. Pergunte para a Karin…”

 

Selma, irônica: É, ela não perdia sempre, sempre não (pausa)… Calma, ela vai escrever… Desliga e diz, sorrindo, como sempre, da mesma maneira quando estava prestes a ganhar mais uma partida de tranca. “Conta as histórias que vivemos nas andanças pelos teatros com as peças. Fale da ética que ele tinha. Da seriedade, do profissionalismo, de como ele era divertido. Conte o quanto ele nos ensinou. Fale em como nossos dias de jogatina foram maravilhosos. Em como nos divertíamos com ele e a Karin naquelas longas e inesquecíveis tardes em volta da mesa. Rindo, praguejando aquela carta que não vinha…” (pausa).

 

… aquela carta que não vinha. É isso, agora, aqui, fico pensando nas cartas que nunca mais virão e, mesmo assim, ficamos procurando a vida toda: É isso! Paulo Autran fez toda diferença em minha vida. E, certamente, fez na vida de algumas pessoas que lerão esse pequeno escrito.

 

Foram 19 anos entre assessoria, jogos de tranca, produção, jogos de tranca, leituras de textos, jogos de tranca e idas ao teatro. Ele, sempre com Karin, assistia a todas as peças em cartaz; dos porões aos palácios dessa cidade, e isso foi uma das dezenas de coisas que aprendi com ele: assistir teatro.

 

Alguém: E vocês não comiam?

 

Eu: Sim, comíamos, mas pouco. Ele sempre foi minha melhor dieta e meu melhor mentor. Meu crítico mais algoz e, ao mesmo tempo, meu maior incentivador para a escrita.  Eu o amava… Ainda o amo e a Erika certamente sabe disso.

 

Morreu em 2007. No mesmo dia em que seria encenado um texto meu, “Alternativa”, com Adriane Galisteu e Elias Andreato, seu grande amigo, na Satyrianas. Ei, veja isso, Erika, Ivam, no mesmo dia da Satyrianas.

 

Paulo Autran nasceu num feriado, 7 de setembro, no ano da maior manifestação artística desse País, em 1922. E faleceu em 2007, também num feriado, 12 de outubro. Feriado duplo: Dia das Crianças e Dia de Nossa Senhora da Aparecida. Engraçado, e diziam alguns que ele não gostava dos pequenos e nem era lá muito católico. Ledo engano…

 

Afinal, o que somos todos a não ser poeira ao vento? Só que tem algumas poeiras que o vento nunca deixa parar de voar…

 

http://www.youtube.com/watch?v=_wp4O7v5320&feature=related

 

Obs.: Ah, nunca mais joguei tranca. E estou com saudades. Vamos Karin, vamos Selma, marcar um jogo qualquer dia desses?

 

Fim do Primeiro Ato.

 

 

Veja os verbetes de Célia Forte e Paulo Autran na Teatropédia.

 

Para ver os outros depoimentos que compõem a semana em homenagem ao Dia Mundial do Teatro, clique aqui.