Quando reflito sobre a trajetória dessa maiúscula mulher e artista superlativa que é Renata Pallottini, agradeço a todos os deuses do teatro que, tão cedo, fizeram com que meu caminho se cruzasse ao dela.
Como ávido pesquisador, interessado em me aproximar dos caminhos da dramaturgia, encontrei a pequena súmula de seus valiosos ensaios teóricos, “Introdução à Dramaturgia”, da extinta editora Ática, revisado e relançado como “O que É Dramaturgia?”, coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense, e, desde então, sei que em sua obra posso encontrar estímulos para pensar sobre a arte praticada no tablado, ou fora dele, já que um dos recentes focos de interesse de seu estudo da dramaturgia é o diálogo da obra dramatúrgica com o espaço (quase nunca um teatro convencional) da representação.
Na introdução do livro, que ganhou versão latino-americana, em 1993, Renata atenta para a questão da “ausência de paradigmas dramatúrgicos”, após os anos 1950, capazes de classificar a obra como teatral ou não, fato extremamente importante quando críticos teatrais se aproximam de um espetáculo com o objetivo de refletir sobre o mesmo.
Entretanto, a obra de Pallottini vai muito além dos ensaios sobre dramaturgia para o teatro ou TV (“Dramaturgia de Televisão”, editora Moderna), Renata destaca-se como dramaturga, roteirista de seriados televisivos como “Vila Sésamo”, “Malu Mulher” e “Joana”, romancista e poeta, tendo 55 anos de publicação.
Sinto, apenas, não finalizar meu Mestrado, que era orientado por Renata Pallottini na USP (universidade em que se aposentou) devido ao lançamento de meu site, www.aplausobrasil.com.br, que me impediu de prosseguir no mergulho dos estudos, porque sei que estava nas mãos de uma verdadeira mestra.
Continuo seu discípulo e agradeço por me conduzir ao caminho que aprofundou essa paixão incondicional, semeada pela atriz Célia Helena nos meus tempos de teatro-escola, incondicional que tenho pelo teatro.
Deleitem-se com um poema de Renata Pallottini:
O Grito
se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos
se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse
se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre tem o direito de não sofrer
se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se ao menos esta dor sangrasse
Veja os verbetes de Michel Fernandes e Renata Pallotin na Teatropédia.
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