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Renato Borghi por Luciana Borghi

Publicado em: 28/03/2012 |

Nos seus 50 anos de carreira, fizemos uma peça dele chamada “Cadela de Vison”, junto com o grande parceiro de 20 anos de Teatro Promíscuo, Élcio Nogueira Seixas, que dirigia e também atuava no espetáculo. A certa altura da peça, Borghi dizia: “De repente, o milagre! Uma aura de luz te iluminava inteira e você era uma deusa, uma entidade trágica, uma Medéia incorporada vociferando blasfêmias num canto agudo de sereia desembarcada na praça Mauá”. E sempre, nessa hora, eu borrava o rímel! Ai! Agora, escrevendo, eu penso que o milagre é você, meu tio. Não pude ver Dalva, muito menos Piaf no palco, mas te vejo e você é do tamanho delas, meu divo!   

 

Não há como falar de Renato Borghi sem falar de Dalva de Oliveira, sua grande mãe artística e musa inspiradora, com quem ele descobriu o que queria fazer da vida: lidar com fortes emoções e tocar o coração do Brasil. E foi o que fez. Dalva tem um lugar cativo em sua casa. Hoje em dia, uma das coisas que mais me dá prazer quando venho a São Paulo, é ouvir, com ele, “Meu Deus” e “Sempre te Amarei”, na voz de Dalva. Temos este ritual. 

 

Assim como Dalva, este homem é ritual puro, pagão ou não, não importa, o que importa é a força e o axé que carrega em seu ofício. Formou-se em Direito, entregou seu diploma a seu pai e foi dar vazão ao ritual de sua vida. Graças a Zeus! Ele é o rei e a vela. A realeza viva. A chama do teatro que sempre buscou e ainda busca, porque ele é questionamento puro, um fazer teatral com verdade e inquietação. Uma capacidade de renascer absurda que as gerações mais jovens nem sonham em saber o que é. Porque nós temos um compromisso tão grande com a pose, que deixamos de aprender com os mais velhos, com os sábios. E teatro é carpintaria, é trabalho de ourives. Quem não se lapida, faz a mesma personagem, com a mesma inflexão, e não tem história pra contar. Temos que criar nossa história no teatro, escolher o que fazer, assinar embaixo de uma história.

 

O que eu sei é que ele pode e ele é. Renato Borghi é Oswald de Andrade, é Teatro Oficina, é Zé Celso, é Tchecov, é Brecht, é Shakespeare, é Gorki, é Genet, é Dalva, é Mazzaropi, é Grande Otelo, é uma trupe de Commedia dell’ Arte, é Nelson Rodrigues, é Galileu, é irmão do meu pai amado, é Rio, é São Paulo, é o que ele quiser; é um artista que dá gosto de ver… Há uma verdade muito grande em seu pisar no palco.

 

 

Veja os verbetes de Luciana Borghi e Renato Borghi na Teatropédia.

 

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