EN | ES

Sobre Discriminação e Felicidade

Publicado em: 23/04/2012 |

Manhã de chuva forte no Brás. Nos meses de fevereiro, esse bairro do centro de São Paulo costuma transbordar de água pelas calçadas. O trânsito logo para, despertando o som das buzinas, o que parece agitar ainda mais os pedestres. Eles saltam por entre as poças, alguns empunhando guarda-chuvas recém-comprados de vendedores metidos em capas de chuva.

 

Na esquina, passa uma mulher apressada. Ela segue para uma entrevista de emprego e não quer se atrasar. Rápida, a moça desvia de uma e outra poça até avistar a fachada do local. Antes de passar pelo portão, ela diz para si: “alguém me belisque porque eu não estou acreditando”.

 

Flávia de Araújo é recepcionista na SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, desde 2011. A contratação se deu por meio de uma parceria entre Instituição e a Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual (Cads), que integra a Secretaria de Participação e Parceria da Prefeitura de São Paulo. 

 

“Eu sempre passava no Cads para procurar um estágio, aí Cassio Rodrigo (ex- coordenador) e Ivan Batista (membro do Conselho Administrativo) me encaminharam para a Escola. Eles sempre me ajudaram, diziam que eu era esforçada”, conta Flávia.

 

A Cads elabora ações sociais para proteção da cidadania e combate a discriminação de lésbicas, gays, transgêneros, travestis e transexuais no município. Fundada em 10 de fevereiro de 2005, a coordenadoria visa replicar o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal, previstos na Constituição Federal e na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

 

Depois de uma entrevista com o diretor da Escola, Ivam Cabral, em poucos dias Flávia recebe o contato para trazer os documentos. Ela havia sido contratada. “O Ivam e a SP Escola de Teatro me deram essa oportunidade, eu agarrei e hoje estou feliz”, sorri. 

 

Flávia nasceu numa família de sete irmãos. “Eu fui criada numa família grande, com pai e mãe presentes e isso é o alicerce da minha vida. Quando entendi minha orientação sexual, eles sofreram no início, mas souberam me respeitar e continuaram me amando.”

 

Graduada em Letras no ano passado pela Faculdade de São Paulo Uniesp (União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo), ela relembra os momentos estudando e o desenvolvimento do seu Trabalho de Conclusão de Curso, em que realizou uma análise entre “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis e a Bíblia. “Eu me juntei com duas amigas para investigar o diálogo que havia entre essas duas obras.”

 

 

O Romance Machadiano 

 

Considerado o marco inicial do Realismo no Brasil, o romance de Joaquim Maria Machado de Assis ignora as descrições das paisagens e espaços externos para se focar no interior das personagens, rompendo com o estilo de prosa Romântica. Brás Cubas é um filho da elite carioca que conta sua história depois de morto. No enredo, existe a forte presença do texto bíblico e de elementos da tradição judaico-cristã.

 

O carioca Machado de Assis, nascido em 21 de junho de 1839, passou pelo Ministério da Agricultura, do Comércio e das Obras Públicas e foi o primeiro presidente unânime da Academia Brasileira de Letras. Negro e de origem pobre do Morro do Livramento, o escritor frequentou pouco a escola e nunca passou por uma universidade.

 

“Machado era autodidata e mesmo sendo negro, pobre, gago e epilético, ele agarrou as oportunidades. Eu me identifico com ele. Por eu ser travesti, sofrer preconceito, aproveitei as oportunidades que tive.”

 

 

Na luta por espaço

 

No início de 2009, ela conseguiu uma bolsa de estudos para cursar Letras pelo Programa Operação Trabalho (POT). Mas a dificuldade era conseguir emprego. “Eu fazia testes mais de uma vez em algumas empresas e eles nunca me chamavam. Tenho certeza que é por preconceito.”

 

O jeito foi aprender a costurar e confeccionar artesanato. “Eu ia vender na Praça Benedito Calixto e em outros lugares. Já vendi até tempero na feira, era uma loucura”, relembra Flávia.

 

Sua chegada à SP Escola de Teatro trouxe um novo desafio. Ela estava no último ano do curso e os horários de trabalho e estudos entraram em conflito. Flávia logo pensou em abandonar os estudos. “Eu já tinha conseguido um emprego, embora tenha ficado um pouco triste de ter que parar de estudar.” Num dia, em uma conversa com Ivam, ele insiste para que ela continue os estudos e que poderiam adequar os horários. “Eu fiquei muito feliz. Ele me deu essa oportunidade e eu me dediquei ao máximo”, conclui animada.

 

Texto: Leandro Nunes