Um dos temas mais discutidos pelos pensadores e artistas do teatro atualmente diz respeito à influência da tecnologia no ofício. Enquanto alguns acreditam que essa interação seja prejudicial e incoerente com a essência do fazer teatral, outros enxergam, nas novas ferramentas, maneiras de agregar elementos que tragam resultados originais.
Doutor Ailton, aprendiz de Sonoplastia da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, é um dos que não se intimidam com as inovações. Pelo contrário, seu trabalho praticamente gira em torno da utilização de novas técnicas. E é isso que pode ser visto em “Orfeu Mestiço – Uma Hip-Hópera Brasileira”, espetáculo do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos cuja mesa de som é inteiramente operada por Ailton e seu iPad.
“O tablet faz parte do meu set. Independentemente da peça, sempre uso iPad, iPhone, porque para quase todas as funcionalidades um aplicativo já foi criado. Então, quando surge uma necessidade, pesquiso qual aplicativo funciona melhor e utilizo”, observa o aprendiz.
Segundo Ailton, a sonoplastia da montagem, assinada por Eugenio Lima – que também é artista convidado do curso de Sonoplastia da Escola –, já estava concebida quando ele foi convidado para participar. “Eles já tinham feito uma temporada ano passado, então, para esse trabalho não precisei criar nada, apenas adaptar. No Experimento da Escola, no ano passado, por exemplo, tudo foi criado no iPad.”
Essa opção por trabalhar experimentando novos suportes foi desenvolvida com a ajuda dos formadores e artistas da própria Instituição, explica o aprendiz. “Para a gente, que estuda Sonoplastia aqui, nem é tanta novidade, pois os formadores são muito ligados nisso. No primeiro semestre do curso, Marek Choloniewski, um músico polonês, ministrou uma palestra sobre o seu trabalho. Eu já sabia que era possível usar o iPhone para isso, mas passei a pesquisar mais, controlar o MacBook, os programas de música.”
Por conta de sua afinidade com essa linguagem, Ailton faz dessa característica sua marca registrada. Atualmente cursando o terceiro Módulo na Instituição, ele revela que a prática faz com que ele se familiarize cada vez mais com esses instrumentos.
“Acho mais prazeroso operar a mesa do iPad. Trabalhei assim nos três Experimentos dos quais participei. No primeiro, usei iPhone, iPod e mixer de iPod ligado à mesa; no segundo, usei iPhone e iPad; e, no terceiro, usei esses dois e mais o MacBook, entre outras coisas, então, já é uma linguagem com a qual estou habituado a lidar”, finaliza.
Orfeu Mestiço – Uma Hip-Hópera Brasileira
“Orfeu Mestiço – Uma Hip-Hópera Brasileira” foi criado após três anos de pesquisa, misturando a ópera a elementos da cultura popular urbana. A narrativa, que se desenrola em três planos – a realidade, a memória e o imaginário –, traz seis atores encenando o retorno de um político ao seu passado, ligado à ditadura militar.
No elenco, estão Daniele Evelise, Luaa Gabanini, Roberta Estrela D’Alva, entre outros. Texto e direção são assinados por Claudia Schapira. A montagem conta, ainda, com a participação do grupo Treme Terra, sob a direção musical do DJ Eugenio Lima.
O espetáculo foi o vencedor do 24º Prêmio Shell de Teatro São Paulo, na categoria Melhor Atriz, para Roberta Estrela D’Alva.
Serviço
Orfeu Mestiço – Uma Hip-Hópera Brasileira
Quando: Quinta a sábado, às 20h. Até 28/04.
Onde: Sesc Santo Amaro
Rua Amador Bueno, 505 – Santo Amaro
Tel.: (11) 5525-1855 / (11) 5541-4000
Ingressos: R$ 16
Texto: Felipe Del