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Teatro na TV

Publicado em: 20/10/2011 |

A série Teatro Sem Fronteiras conta com a participação de renomadas companhias teatrais da cena paulista e pretende realizar a documentação da efervescência do teatro contemporâneo. Agora, o projeto – criado e organizado pelo cineasta Evaldo Mocarzel – exibe o fruto dessa proposta no Canal Brasil, todos os domingos, das 20h às 20h30, e reprisado na terça-feira seguinte, às 10h.

 

Em uma jornada do teatro na televisão, a programação conta com os espetáculos “Assombrações do Recife Velho” e “Memória da Cana”, da Cia. Os Fofos Encenam; “Kastelo” e “A Última Palavra é a Penúltima”, do Teatro da Vertigem (o último em parceria com os coletivos LOT e Zikzira); “Vila Verde”, da Cia. de Teatro Os Satyros; “Hygiene”, do Grupo XIX; e “Festa de Separação”, com o encenador Luiz Fernando Marques, a atriz Janaína Leite e o músico Fepa (?).

 

“Todos os espetáculos selecionados realizam uma atuação política para chamar a atenção do poder público para áreas completamente deterioradas do espaço urbano, como o rio Tietê, a Vila Maria Zélia (no Belenzinho) e a Praça Roosevelt (no centro de São Paulo), que já liderou o ranking de violência na Grande São Paulo e, hoje, virou um ‘point cultural’, embora constantemente ameaçado por criminosos. É por todos esses motivos, e mais incontáveis outros, que o teatro paulistano contemporâneo é motivo de orgulho para todos nós, brasileiros”, revela Evaldo.

 

“Estou fazendo a documentação de uma parte da memória do teatro paulistano contemporâneo, que está ‘bombando’ graças à Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo, uma lei importantíssima criada pelos próprios artistas, após um movimento não menos seminal, que foi batizado de Arte Contra a Barbárie”, observa o diretor.

 

Para ele, essa lei abriu um espaço para a pesquisa e experimentação, os “oxigênios da criação artística”. Evaldo explica, ainda, que o projeto seleciona espetáculos realizados em espaços não-convencionais, que rejeitam a chamada “caixa preta” do palco italiano e agregam o público ao espaço cênico, com encenações em locais históricos, construindo atmosferas cênicas que “transbordam sensorialidades em delicados experimentos de interatividade”.

 
 

Confira a programação com uma pequena sinopse feita pelo próprio cineasta:

 

Dia 6 de novembro: “Hysteria”, às 20h30 (Grupo XIX).

Trata-se de um dos espetáculos mais bonitos já encenados no Brasil e no mundo nas últimas décadas, sobre mulheres consideradas histéricas no século XIX e tudo construído a partir de diários encontrados num asilo psiquiátrico do passado. Nosso filme é um road-movie, com as atrizes encenando a peça em inúmeras cidades de Santa Catarina, sempre em locações históricas: museus, institutos de bioquímica e, até mesmo, em uma sauna feminina. Talvez seja um dos mais bonitos da série e tem montagem da cantora e genial montadora Ava Rocha, que fez das imagens que captei um filme extremamente sensorial e feminino, com o premiado Grupo XIX de Teatro.

 

Dia 13 de novembro: “Assombrações do Recife Velho”, às 20h30 (Os Fofos Encenam).

“Assombrações do Recife Velho”, com dramaturgia do genial Newton Moreno (que co-dirigiu o filme comigo) baseada no livro homônimo de Gilberto Freyre e encenação do grupo Os Fofos Encenam. A partir da peça e dos personagens, procuramos devolver ao imaginário popular o que foi coletado no passado por Gilberto Freyre. Trata-de de um documentário arquitetônico todo rodado no Recife Antigo, por meio do qual tentamos desvendar a dramaturgia da passagem do tempo e, sobretudo, as fantasmagorias nas fachadas dos casarios no centro da capital pernambucana. São histórias de almas penadas e uma espécie de “filme-coral”: o áudio foi todo construído com entrevistas sobre assombrações feitas pelos atores e pelas atrizes encarnando os personagens da peça. O filme tem montagem da artista plástica Lea Van Steen.

 

Dia 20 de novembro: “Kastelo”, às 20h30 (Teatro da Vertigem).

“Kastelo”, do Teatro da Vertigem, com dramaturgia da humilde pessoa que vos escreve. Essa companhia, uma das mais importantes do Brasil e do mundo (que ganhou recentemente com o espetáculo “BR-3”, já exibido pelo Canal Brasil, o prêmio de melhor espetáculo do mundo na Quadrienal de Praga), resolveu discutir o trabalho no mundo corporativo em seis andaimes e em rappel do lado de fora do terceiro andar do Sesc Paulista, em plena Avenida Paulista. Trata-se de um filme que mescla cinema, teatro e videoarte, com imagens estonteantes dos atores e atrizes atuando nas alturas. Com montagem também assinada pela artista plástica Lea Van Steen.

 

Dia 27 de novembro: “Vila Verde”, às 20h30 (Cia. Os Satyros).

“Vila Verde”, com o grupo Satyros, um dos mais importantes de São Paulo, que foi pioneiro na revitalização da Praça Roosevelt. “Vila Verde” é uma espécie de intervenção urbana encenada na periferia da capital paranaense, durante o Festival de Teatro de Curitiba, há alguns anos. O encenador Rodolfo García Vásquez foi para esse bairro na periferia de Curitiba, que, também, durante muitos anos, liderou o ranking de violência na cidade e entrevistou os moradores daquela comunidade. Depois misturou os atores e atrizes do grupo com os personagens “reais” do local e dirigiu um espetáculo recriando as histórias contadas por todos da Vila Verde.

 

Dia 4 de dezembro: “Memória da Cana”, às 20h30 (Os Fofos Encenam).

“Memória da Cana”, com o grupo Os Fofos Encenam e direção de Newton Moreno. O diretor e grande dramaturgo pediu aos atores e atrizes com raízes nordestinas da companhia para trazer fotos de família: velhos e crianças. Foram, então, criadas figuras cênicas que, depois, foram inseridas nos personagens de “Álbum de Família”, de Nelson Rodrigues, que, diga-se de passagem, nasceu em Pernambuco, embora tenha se tornado um “carioca autêntico”. Depois disso, Newton Moreno recriou a estética expressionista de Nelson Rodrigues à luz do canavial de Gilberto Freyre e a peça é o resultado de todo esse processo. Newton Moreno explica o processo do espetáculo falando de cada um dos atores que participaram da encenação. Na segunda parte do espetáculo, houve uma opção radical pela não utilização de luz elétrica, somente fogo e luz de velas e candeeiros. A premiada montagem arrebatou dois Prêmios Shell aqui em São Paulo (direção e cenário) e esteve recentemente em cartaz no Rio, no Centro Cultural Banco do Brasil. O filme foi montado por Mariana Fresnot, filha do cineasta Alain Fresnot.

 

Dia 11 de dezembro: “A Última Palavra é a Penúltima”, às 20h30 (Vertigem. LOT e Zikzira).

“A Última Palavra é a Penúltima”, intervenção urbana que três grupos de artes cênicas fizeram, há algum tempo, numa galeria abandonada no centro de São Paulo: Teatro da Vertigem, Zikzira e LOT, do Peru, tudo em processo colaborativo. Não se trata propriamente de uma peça, mas de uma intervenção urbana, como já disse, que incorporou os transeuntes do centro da cidade como personagens efêmeros da encenação. Essa inusitada experimentação artística, que envolveu quatro diretores, gerou imagens muito bonitas. Uma mistura de cinema, teatro, performance e videoarte. O filme foi montado pelo cineasta Fernando Coster.

 

Dia 18 de dezembro: “Hygiene”, às 20h30 (Grupo XIX).

“Hygiene”, com o Grupo XIX de Teatro. Mais uma intervenção urbana da nossa série, agora, pelas ruas do casario em parte abandonado à beira do rio que corta a capital do Acre, Rio Branco. A companhia focaliza as angústias de imigrantes em São Paulo no Século XIX, antes de uma investida higienista num cortiço. A parte final da peça é toda encenada na casa de pessoas “reais” e, em Rio Branco, foi encenada num casarão parcialmente abandonado cujo proprietário é um libanês. Trata-se de um filme em que procuramos desconstruir o processo do espetáculo na capital acreana. A edição foi feita pela montadora e finalizadora Nathália Okimoto, de Curitiba, que agora trabalha em Belo Horizonte.

 

Dia 25 de dezembro, “Festa de Separação”, às 20h30 (Lubi Marques, Janaína Leite e Fepa).

“Festa de Separação”, com direção de Luiz Fernando Marques, do Grupo XIX de Teatro, mas não é um projeto da companhia. A atriz Janaína Leite, do mesmo grupo, se separou “na vida real” do seu marido, o músico e professor de filosofia Fepa. Resolveram transformar a dor da separação num ato de criação artística e o resultado foi esse “espetáculo” que eles preferem chamar de “documentário cênico”. Esteve em cartaz durante bastante tempo em São Paulo e fez sucesso no Rio, no Sesc Copacabana. Uma encenação completamente inusitada que é uma linda reflexão sobre o amor na sociedade contemporânea. O filme foi montado pelo cineasta Fernando Severo.
 

Texto: Renata Forato