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Yedda – Artífice da Cena

Publicado em: 08/03/2012 |

Na tentativa de reter as melhores lembranças da Yedda reconheço, nas particularidades da minha relação com ela, aquilo que nos unia. Tínhamos uma simbiose quase perfeita e quando podíamos compartilhávamos nossas histórias, livros, vinhos, experiências, mas o que mais fortemente nos ligava era a nossa verdadeira paixão pelo teatro, especialmente, pelos segredos da arte do ator.

 

Ela se tornaria, por essa mesma razão, uma professora extremamente perceptiva e eficiente com seus alunos.  Em toda a sua experiência prática o corpo estava na raiz de suas pesquisas, que somadas aos estudos de Meyerhold e à biomecânica constituíam um conhecimento sólido. Yedda viveu na Itália, na França e passou algumas vezes pela Rússia.  Concluiu o seu doutorado na Paris III com Béatrice Picon-Vallin, e  desenvolveu uma pesquisa sobre a relação entre ciência e teatro junto ao College de France com coorientação do professor e neurofisiologista Allan Bertoz. Tinha currículo e experiência invejáveis e usava seus conhecimentos teóricos sempre em favor da prática teatral. Conhecia muitos exercícios de biomecânica, tinha praticado esgrima, Kathakali e outras danças, e nos últimos três anos vinha explorando os estudos físico-vocais, voltada principalmente para os ensinamentos de Roy Hart.  Esse caminho profissional íntegro e criativo mostra os seus interesses, as questões que orientavam o teatro que ela buscava. Um teatro da experiência, de fluências e vitalidade.  

 

Em um ensaio recente publicado em um livro , Yedda sintetiza a tarefa a que ela se dedicou durante quase toda a sua vida artística e intelectual: “Foi a partir do estudo da biomecânica teatral, dos seus inúmeros exercícios do aprender o ‘saber-fazer’, sob a orientação do ator pedagogo russo Guennádi Bogdánov, que pude experienciar um corpo que ajuda a pensar”. Não se trata de uma frase de retórica, Yedda agia de modo excepcional nos ensaios, convocando o corpo e o pensamento para uma sabedoria da cena. 

 

Depois de ter realizado o espetáculo “Silêncio”  com ela e com Matteo Bonfitto eu nunca me cansaria de repetir que atores notáveis eu encontrara. Aliás, eles tinham uma cumplicidade teatral rara.  Existia um verdadeiro equilíbrio na relação entre nós três, na prática estabelecia-se um verdadeiro diálogo entre criadores, cada qual em seu distinto papel. O lugar de Yedda era o de um artífice devotado ao perfeito acabamento de sua obra.  Eu não me cansaria de vê-la em seu prazer de repetir os pormenores de uma ação, de se deleitar com a melodia de uma palavra, de alternar um impulso ou um gesto com uma voz contrastante.  Toda essa concentração em sua artesania gerava, no final, um desenho definitivo, como ela mesma concluiria no mesmo texto já citado, “um engajamento do corpo como um transformador do  subjetivo em objetivo”.   A imagem final trazia no seu traçado a presença luminosa de Yedda, que alternava forças , energias e emoções em um corpo que não suspeitava que pudesse tudo aquilo conter.

 

Sinto falta da sua presença, da amiga, da parceira, do que deixamos de fazer juntas. Tínhamos muitos planos. Nunca saberei o que teríamos feito ainda, mas com certeza correríamos muitos riscos, sem os quais o teatro, para nós, não teria o menor sentido. Encerramos este capítulo da vida, cessamos as apresentações do nosso espetáculo, quem assistiu as suas cenas pode guardar a imagem de uma atriz irretocável, e para quem teve a oportunidade de conviver com Yedda, fica a saudade de uma mulher que amalgamava a suavidade com a potência.

 

 

 

Beth Lopes é diretora teatral e professora de Atuação no Curso de Artes Cênicas da ECA/USP. Com Yedda encenou vários espetáculos, desenvolveu pesquisas práticas comuns, além de ser colega do CAC/ECA/USP.

 

 

 

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