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Eduardo Tolentino por André Garolli

Publicado em: 28/03/2012 |

Um Amigo

(Adaptação do texto de Carlos Drummond de Andrade)

 

Não precisa ser homem, basta ser humano,

        basta ter sentimentos, basta ter coração.

        Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.

        Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaros,

        de sol, de lua, de canto, dos ventos

        e das canções da brisa.

        Deve ter amor, um grande amor por alguém,

        ou, então, sentir falta de não ter esse amor.

        Deve amar o próximo e respeitar

        a dor que os passantes levam consigo.

        Deve guardar segredo sem se sacrificar.

        Não é preciso que seja de primeira mão,

        nem é imprescindível que seja de segunda mão.

        Pode já ter sido enganado,

        pois todos os amigos são enganados.

        Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro,

        mas não deve ser vulgar.

        Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e,

        no caso de assim não ser,

        deve sentir o grande vazio que isso deixa.

        Deve ter ressonâncias humanas,

        seu principal objetivo deve ser o de ser amigo.

        Deve sentir pena das pessoas tristes e

        compreender o imenso vazio dos solitários.

        Deve gostar de crianças e lamentar

        os que não puderam nascer.

        Que saiba conversar de coisas simples,

        de orvalho, de grandes chuvas

        e de recordações da infância.

        Precisa-se de um amigo para não enlouquecer,

        para contar o que se viu de belo e triste durante o dia,

        dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.

        Deve gostar das ruas desertas, de poças de água

        e dos caminhos molhados, de beira de estrada,

        de mato depois da chuva,

        de se deitar no capim.

        Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver,

        não porque a vida é bela,

        mas porque já se tenha um amigo.

        Precisa-se de um amigo para se parar de chorar.

        Para não se viver debruçado no passado

        em busca de memórias perdidas.

        Que bata nos ombros sorrindo e chorando,

        mas que nos chame de amigo,

        para se ter consciência de que ainda se vive.                           

 

 

Veja os verbetes de André Garolli e Eduardo Tolentino na Teatropédia.

 

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